"…Prevejo algum acontecimento grave"

Terça-feira, 20 de Dezembro de 1977

Hoje encontro-me perfeitamente bem. Passo o tempo a sonhar, a imaginar momentos que desejo viver, como se bastasse pensá-los para que, de algum modo, começassem a aproximar-se de mim.

Gosto de toda a gente. E é precisamente isso que me preocupa.

Não sei explicar muito bem porquê. Talvez porque não estou habituado a sentir-me assim, tão disponível para os outros, sem distinguir muito entre quem me é próximo e quem apenas passa pela minha vida. Gosto das pessoas e quero-lhes bem. Parece simples, mas dentro de mim não é.

Há qualquer coisa nesta boa disposição que me inquieta.

Por vezes, quando tudo parece correr bem, começo a desconfiar da própria tranquilidade. Como se a felicidade tivesse sempre uma sombra escondida atrás dela, à espera de que eu me distraia. E hoje tenho essa sensação. Não porque alguma coisa tenha acontecido, mas precisamente porque nada acontece.

Prevejo algum acontecimento grave.

Não sei qual. Não sei quando. Não sei sequer se existe alguma razão concreta para pensar assim. É apenas uma sensação, uma espécie de aviso interior que não consigo afastar.

Por isso quero estar prevenido.

Talvez seja apenas imaginação. Talvez seja o meu pensamento a procurar problemas onde eles não existem. Mas, neste momento, a minha boa disposição parece dizer-me o contrário. Estou bem, sinto-me bem, e é justamente por estar assim que alguma coisa dentro de mim permanece alerta.

É estranho, posso estar feliz e, ao mesmo tempo, esperar uma nuvem.

E talvez seja esta a parte mais difícil de crescer, descobrir que nem sempre conseguimos viver simplesmente o momento. Mesmo quando o presente nos sorri, há pensamentos que já estão a espreitar o que poderá vir depois.



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