Prólogo - Abril de 1978

Antes que a porta se feche

Março deixou António num lugar diferente daquele em que entrou. Não houve uma ruptura súbita, nem uma manhã em que tudo se tenha tornado claro. Houve antes um desgaste lento, feito de silêncios, ciúmes, perguntas sem resposta e uma consciência que começou, pouco a pouco, a olhar para trás.

Abril chega quando essa consciência já não consegue voltar a fechar os olhos.

Não é ainda um mês de recomeço. Seria demasiado fácil dizê-lo assim. Antes de começar outra coisa, António terá de reconhecer aquilo que terminou. E reconhecer não significa deixar de sentir. Há perdas que continuam a doer mesmo depois de deixarem de comandar os nossos dias.

Ao longo das últimas semanas, Lina foi perdendo espaço dentro dele. Ainda está presente, ainda provoca inquietação, ainda pode despertar uma antiga reacção. Mas já não ocupa todo o horizonte. Entre a lembrança de Odília, a culpa que regressa de lugares que António julgava arrumados e a necessidade cada vez maior de compreender o que lhe acontece, começa a formar-se uma distância nova.

É uma distância ainda imperfeita.

António continua a observar, a recordar, a escrever. Continua a procurar nas palavras aquilo que não consegue resolver na vida. A poesia torna-se, cada vez mais, uma espécie de lugar onde pode permanecer quando as respostas não aparecem. E talvez seja precisamente por isso que Abril terá uma importância que só mais tarde se tornará evidente. Algumas mudanças não começam quando tomamos uma decisão. Começam antes, no momento em que deixamos de conseguir acreditar naquilo que durante tanto tempo quisemos acreditar.

Os primeiros dias deste mês ainda pertencem ao passado que se desfaz.

Mas há qualquer coisa a mudar.

Não será uma libertação limpa, dessas que deixam tudo arrumado e em silêncio. Será mais humana do que isso. Haverá pena, desgosto, hesitação e a necessidade de aceitar que certas histórias não podem ser salvas apenas porque um dia foram verdadeiras.

E, enquanto essa porta se fecha lentamente, outra começa a existir do outro lado.

Ainda não sabemos para onde conduz.

António também não.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, o futuro começa a ter espaço para entrar.



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