Prólogo - Fevereiro de 1978

 

À beira do abismo

Há meses que começam no primeiro dia. Fevereiro de 1978 não.

Chega trazendo consigo o peso dos meses anteriores, como se Janeiro não tivesse terminado verdadeiramente. A relação com Lina continua a ocupar um lugar central na vida de António, mas alguma coisa mudou. Ainda existe proximidade, ainda existem encontros, palavras e momentos de felicidade. Contudo, por baixo dessa aparente normalidade, começa a crescer uma inquietação que ele próprio nem sempre consegue compreender.

É uma inquietação feita de dúvidas.

António procura certezas onde elas talvez não existam. Observa gestos, interpreta silêncios, interroga palavras e tenta encontrar nos pequenos acontecimentos respostas para perguntas que nem sempre consegue formular. O ciúme, já presente anteriormente, ganha agora uma dimensão maior. Deixa de ser apenas uma emoção passageira e começa a condicionar a maneira como olha para aquilo que vive.

Quando não encontra respostas, a imaginação encarrega-se de as fabricar.

Esta é uma das características mais marcantes deste período, António ainda acredita que compreender é uma forma de controlar. Se conseguir perceber o que está a acontecer, talvez consiga impedir que aconteça aquilo que teme. Mas as relações humanas não obedecem a essa lógica. Há coisas que não se explicam a tempo. Há silêncios que dizem mais do que as palavras. E há afastamentos que começam muito antes de alguém ter coragem de lhes dar um nome.

Fevereiro vai colocar António perante essa realidade.

Não será, porém, apenas um mês de perda. Será também um mês de confronto consigo próprio. A relação com Lina obriga-o a olhar para os seus medos, para a sua insegurança e para uma dependência emocional que entretanto se tornou muito maior do que ele parece reconhecer.

É curioso observar, a esta distância, o espaço que uma pessoa pode ocupar na vida de outra. Lina não é apenas alguém com quem António se encontra. É, naquele momento, uma referência à volta da qual se organizam os seus dias, as suas expectativas e até o seu estado de espírito. Quando tudo parece correr bem, o mundo recupera alguma ordem. Quando surge uma dúvida, essa ordem desfaz-se com uma facilidade desconcertante.

E é precisamente aí que começa a revelar-se a fragilidade daquele equilíbrio.

As páginas deste mês mostram também outra transformação. A escrita, que durante muito tempo serviu sobretudo para registar o que acontecia, começa a adquirir uma função diferente. António escreve porque precisa de compreender. Escreve porque há emoções que não consegue dizer. Escreve porque algumas perguntas, quando permanecem demasiado tempo dentro de nós, acabam por procurar uma saída.

Surgem pensamentos, poemas, interrogações e estados de espírito que ultrapassam largamente a simples descrição dos dias.

É como se a vida começasse a transbordar para o papel.

O rapaz que escreve ainda não sabe que está a atravessar uma fronteira importante. Ainda acredita que pode salvar determinadas coisas pela força da vontade, da insistência ou da esperança. Ainda não sabe que há momentos em que insistir não aproxima ninguém. E que algumas perdas começam precisamente quando ainda se luta desesperadamente para evitá-las.

Fevereiro será feito dessa luta.

Haverá esperança quando talvez já devesse existir prudência. Haverá resistência quando talvez fosse necessário aceitar. Haverá memória, porque perante a ameaça de perder aquilo que se ama, o passado transforma-se facilmente num lugar onde se procura abrigo.

E haverá silêncio.

Um silêncio que não significa ausência, mas tudo aquilo que António ainda não consegue dizer.

Fevereiro aproxima-se assim como uma porta entreaberta. Do outro lado, alguma coisa está prestes a mudar. Ainda não é possível ver claramente o que se encontra para lá dela, mas já se sente a corrente de ar.

O leitor sabe que esta história não ficará onde está.

António ainda não.

E talvez seja precisamente essa diferença que torne estas páginas tão inquietantes, enquanto ele procura desesperadamente uma forma de conservar o que tem, o tempo já começou, silenciosamente, a preparar outra coisa.

Entre aquilo que se perde e aquilo que ainda poderá nascer haverá dor, silêncio e uma longa aprendizagem.

Mas isso ainda pertence ao futuro.


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