O desespero é absurdo
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 1978
Hoje precisava de estar com a Lina. Não é uma coisa que se explique bem, precisava, e pronto. Queria perceber em que estado ela estava, o que se passava com ela depois do que aconteceu ontem. Consegui vê-la por um triz. Um daqueles acasos que não são bem acaso.Num primeiro momento, nada parecia ter mudado. O mesmo rosto, a mesma maneira de estar. Pensei que talvez tudo estivesse como antes e que eu tivesse andado a construir problemas onde eles não existiam.
Mas logo a seguir ela disse que queria falar comigo. Deixou para amanhã.
Fiquei com aquilo preso. Não perguntei o quê, nem porquê. Disse que sim e vim embora com a frase a acompanhar-me. Há frases que não se largam, ficam a andar ao lado da gente o resto do dia.
Na lógica, um homem ficaria pensativo. Eu não. Sempre fui assim, conto com o pior, e quando ele aparece recebo-o com um sorriso. Não é coragem, é defesa. Se espero o pior, nunca me apanha desprevenido. É a maneira que arranjei de não me deixar derrubar.
Também sempre fui desconfiado — desde que comecei a ver as coisas com olhos de ver. Mas desconfiado e pouco cauteloso, que é o pior que se pode ser. Vejo o abismo e vou na direcção dele, devagar, como se o estivesse a estudar.
Ontem, quando lhe falei, devia ter-lhe dito que aquilo que eu andava a fazer era por ciúmes. Era a verdade e não a disse. Não tive coragem. As palavras certas chegam sempre depois, quando já não servem para nada. Por isso me disponho a passar o que tiver de passar. Amo-a, sinto-a presa no coração, e se nos separarmos continuarei a amá-la. Isso não se decide.
Estou preparado para o pior. Não é uma frase que se diga por dizer. É uma posição que se toma por dentro.
Comentários
Enviar um comentário