Prólogo — Janeiro de 1978

Entre a esperança e o receio

Um novo ano começa, mas António não entra nele sozinho. Há pessoas, momentos e palavras que atravessam a passagem de um ano para o outro sem se deixarem ficar pelo caminho.

Lina continuará muito presente. Os encontros, alguns demorados, outros quase fugazes, continuarão a dar sentido a muitos dos seus dias. Haverá ainda versos escritos para ela, palavras guardadas, olhares que dizem mais do que as conversas e aquela expectativa tão própria de quem espera por alguém.

Mas Janeiro trará também outras coisas.

Há uma parte da sua história que não ficou para trás como ele talvez imagine.

Há memórias que não desaparecem quando deixamos de falar delas. Ficam quietas, escondidas num lugar onde não costumamos procurá-las, e podem permanecer assim durante muito tempo. Dila pertence a esse lugar. António não pensa nela como antes, não a procura e não vive conscientemente preso ao que aconteceu. A vida seguiu. Só que certas experiências não terminam exactamente quando as julgamos terminadas.

O diário vai mudar de tom. A vida continuará a acontecer nas ruas, na escola, em casa, nos encontros de sempre, mas António começará a escrever de outra maneira. As páginas deixarão cada vez mais espaço para aquilo que se passa dentro dele: pensamentos que se prolongam, dúvidas que regressam, perguntas para as quais nem sempre encontra resposta.

Já não lhe bastará contar o que aconteceu. Sentirá necessidade de perceber o que cada coisa lhe está a fazer.

Ainda haverá entusiasmo. Ainda haverá esperança. Ainda haverá motivos para sorrir.

Mas nem tudo será tão simples como parece nos primeiros dias de Janeiro.

O que se vai escrever nestas páginas continuará, à superfície, a ser a história de António e Lina. Os encontros, as palavras, as esperanças e as inquietações ocuparão o lugar principal. Mas, por baixo de tudo isso, há uma memória antiga que continua a existir e que poderá voltar a fazer-se sentir quando alguma coisa tocar na mesma ferida.

António não saberá, de imediato, de onde vêm certas sensações. Sentirá apenas que alguma coisa dentro dele reage antes de a razão conseguir compreender. E, à medida que a relação com Lina lhe trouxer segurança ou insegurança, proximidade ou receio, esse passado poderá aproximar-se sem que ele o reconheça.

Por enquanto, nada disso está explicado.

Há apenas um rapaz, uma rapariga, alguns encontros e muitas palavras por escrever.

E, muito fundo dentro dele, uma história que nunca chegou verdadeiramente a apagar-se.


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