Um começo diferente
Domingo, 1 de Janeiro de 1978
Prefiro este primeiro dia do ano ao último do anterior.
Ontem fiquei com a sensação de que o ano acabava mal. A minha sobrinha foi para o hospital e, no meio de tudo isso, quase não estive com a Lina. Hoje, pelo menos, pude vê-la, ainda que por pouco tempo. Para mim, isso já faz diferença.
Talvez pareça pouco a quem olha de fora. Alguns minutos podem não significar grande coisa. Para mim significam. Quando espero por alguém de quem gosto, o tempo mede-se de outra maneira. Um encontro breve pode valer mais do que horas passadas sem nada que me interesse verdadeiramente.
Hoje, porém, aconteceu qualquer coisa que não consigo compreender.
A Lina estava muito fechada. Senti-a diferente, mais distante, como se não estivesse inteiramente comigo. Procurei perceber o que se passava, mas não consegui. Talvez fosse por a irmã estar perto. É possível que a presença dela a tenha condicionado e que, por isso, a Lina não se tenha mostrado como normalmente se mostra quando estamos sozinhos.
Quero acreditar que foi apenas isso.
Mas não gosto de ficar sem perceber aquilo que se passa com ela. Quando estamos juntos, presto atenção a tudo, às palavras, aos silêncios, à maneira como olha para mim, à forma como se aproxima ou se afasta. Há momentos em que sinto que a compreendo sem que seja preciso perguntar nada. Outros há em que, de repente, parece existir uma distância que não sei atravessar.
Hoje fiquei desse lado.
Não quero transformar uma pequena mudança de comportamento numa preocupação maior do que ela é. Afinal, estive com a Lina e isso torna este dia melhor do que o anterior. Mas também não consigo ignorar aquilo que senti.
Talvez amanhã tudo pareça diferente.
Por enquanto, fico com este começo de ano, um encontro curto, uma Lina que não consegui compreender e uma dúvida que prefiro não deixar crescer.
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