Quatro dias, duas medidas do tempo
Comecei a interessar-me por P.E.S., percepção extra-sensorial. A ideia de que possa existir qualquer coisa para além daquilo que consigo compreender começa a despertar em mim uma curiosidade difícil de afastar. Vejo nisso alguma coisa de real e possível, sobretudo porque, dentro da minha própria família, já aconteceu um fenómeno que me deixou a pensar. Um familiar acreditou ter conseguido prever ou adivinhar um acontecimento antes de ele acontecer, e essa possibilidade basta para me fazer olhar para estas coisas de outra maneira.
Não acredito em bruxedo. O que me interessa é precisamente tentar perceber se há alguma explicação para fenómenos que parecem escapar àquilo que conhecemos. Quero estudar o assunto mais profundamente, ler, procurar respostas e tentar esclarecer perguntas que, talvez, nem sejam assim tão difíceis.
Mas, enquanto procuro compreender aquilo que está fora de mim, também começo a reparar naquilo que se passa dentro da minha própria cabeça.
Estarei louco?
Noutro dia, a imaginação levou-me ainda mais longe. Agora sonho e chego a julgar-me uma espécie de super-homem, alguém que tudo consegue através do pensamento. Gosto também de imaginar diferentes personalidades, de assumir outras formas de ser, como se pudesse experimentar, dentro de mim, pessoas diferentes daquilo que sou.
Há qualquer coisa de fascinante nesse exercício. A minha cabeça parece não querer ficar quieta. Penso, imagino, experimento possibilidades e deixo-me levar por elas. Sei que existe uma diferença entre aquilo que imagino e aquilo que é real, mas gosto desse espaço onde a imaginação me permite ser aquilo que quiser.
E, no entanto, a pergunta volta outra vez.
Estarei louco?
Talvez seja apenas a minha maneira de procurar compreender-me. Talvez seja simplesmente a idade, a curiosidade, a vontade de descobrir coisas que ainda não consigo explicar. Mas não deixo de achar curioso que, quanto mais procuro respostas fora de mim, mais perguntas encontro dentro de mim próprio.
De repente, os dias passaram a ser curtos.
Vi a Lina, mas não saí ao seu encontro. A minha cobardia continua a persistir, apesar da vontade que tenho de me aproximar. Há qualquer coisa que me trava. Penso também que ela talvez não gostasse que eu saísse ao seu encontro, e compreendo isso. Por isso, acabo por me limitar aos sábados e domingos.
Paciência?
É uma palavra pequena para uma coisa que não é pequena dentro de mim.
Vejo-a, sei que está ali, e mesmo assim fico onde estou. Depois fico com a sensação de que poderia ter feito alguma coisa, de que talvez tivesse bastado um gesto, uma aproximação, uma palavra. Mas não faço. A cobardia vence outra vez.
E assim o tempo continua a passar, enquanto eu espero pelos dias em que posso estar mais perto dela.
O dia passa como passam todos os dias, vinte e quatro horas, 1.440 minutos, 86.400 segundos.
É muito tempo.
Pelo menos parece ser.
Porque, no meio de todas essas horas, o que acaba por ficar verdadeiramente comigo são apenas alguns minutos. Talvez cinco, se tanto. Quase trezentos segundos.
Foi esse o tempo que estive com a Lina.
E é estranho pensar que um dia inteiro pode caber, afinal, numa comparação tão simples. Existem 86.400 segundos num dia, mas bastam quase 300 para que tudo o resto pareça perder importância.
Foram poucos segundos, mas não me pareceram poucos.
Talvez seja essa a razão por que os dias me parecem agora tão curtos. O tempo corre quando espero e desaparece quando finalmente tenho aquilo que desejo. Durante horas, nada parece acontecer, depois, em poucos instantes, acontece tudo aquilo que realmente importa para mim.
Quase trezentos segundos. Tão pouco tempo. E, para mim, tanto.
Adoro adorar.
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