O tempo não poupa ninguém
Domingo, 18 de Dezembro de 1977
Adoro adorar, pois tudo o que adoro é adorado e, infelizmente, odiado.
Hoje estive com a Lina de manhã e de tarde. Fiquei delirante com a ideia de a ter junto a mim. A sua presença bastava para transformar aquelas horas em qualquer coisa de especial, mas o tempo continuou a sua marcha, segundo a segundo, minuto a minuto, sem se deter por aquilo que eu estava a viver.
Eu tentava aproveitar cada instante, como se pudesse impedir que ele desaparecesse. Mas não conseguia. Os momentos passavam demasiado depressa e, quanto mais agradáveis eram, maior parecia ser a vontade de os prolongar.
O tempo é cruel. Não poupa os amantes, os apaixonados, os que sentem com o coração e pensam com a cabeça.
E talvez seja precisamente por isso que fico tão preso a cada lembrança dela.
Se soubessem o quanto adoro tudo aquilo que já vivi com a Lina. Estes meus lábios que já a beijaram. Estas minhas mãos que já sentiram aquele coração palpitante por detrás do seu peito e que, de algum modo, também me fazem palpitar e me dão uma razão de ser.
Este meu corpo foi testemunha de tudo o que os meus olhos viram. O meu nariz já sentiu o perfume suave dos seus cabelos. Os meus ouvidos nunca se fartaram de ouvir o som melodioso, adorado, inesquecível da sua voz.
E as minhas faces tiveram a felicidade de sentir os seus lábios.
Cabelos, faces, seios, tudo aquilo que já foi tocado pela pessoa que, para mim, é uma adorável rosa. Há uma espécie de felicidade em recordar tudo isto, como se cada sentido guardasse uma parte dos momentos que o tempo insiste em levar.
Mas há também outras coisas que me preocupam.
Nunca fiz mal a esses “tipos” e, mesmo assim, sinto-me como se o tivesse feito. Tento mudar, embora nem sempre consiga, porque sou aquilo que sou. Não lhes quero mal, nem a ninguém. Também não quero ficar de mal com ninguém, porque sei que ficaria magoado se alguém se magoasse.
Talvez seja esta a minha maneira de ver as pessoas. Posso irritar-me, posso sentir-me incompreendido, posso até querer mudar algumas coisas em mim, mas não consigo desejar verdadeiramente o mal a ninguém.
E hoje, depois de ter estado com a Lina, percebo ainda mais como o tempo é estranho.
Passam horas, ficam minutos, desaparecem segundos.
E aquilo que eu mais gostaria de conservar é precisamente aquilo que o tempo nunca deixa ficar.
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