Ego em alta
Quinta-feira, 1 de Dezembro de 1977
Ontem comprei uma aliança para a Lina.
É uma aliança de comprometida, bonita, trabalhada, embora seja de prata. Não sou rico e sei que o material não lhe dará o valor que eu atribuo a esta prenda. Com a aliança, porém, dou algo mais, com um valor pecuniário sem imaginação, incalculável.
Tenho em mente escrever qualquer coisa sobre a sociedade, o amor e a mente. Gosto de escrever, adoro escrever. E todos os meus escritos gosto de os dedicar a alguém. Na maioria das vezes, porém, dedico-os à minha pessoa, ao meu eu, a mim mesmo.
Eu adoro-me.
Sei que sou superior a tudo e a todos. Para além da alma, nada mais tenho. Talvez seja por isso que me agarro tanto àquilo que sou e àquilo que sinto.
Se me pisam, digo ai. Se me esbofeteiam, dou a minha mão à cara do oponente. Se me fazem bem, retribuo. Se me amam, amo da mesma maneira.
Há em mim uma forma própria de responder a tudo aquilo que me acontece.
O meu mal é que sou um sentimentalista. Tudo quanto é belo, natural e verdadeiro me prende, me extasia. Não consigo ficar indiferente perante aquilo que sinto como verdadeiro. Há coisas que me tocam precisamente porque não precisam de fingimento para existirem.
Mas o meu bem também é que sou sentimentalista.
Adoro tudo e todos quantos me amam, me temem e me odeiam. Até aquilo que parece contrário a mim acaba por despertar qualquer coisa dentro de mim. Talvez porque preciso de sentir. Talvez porque preciso de saber que as coisas e as pessoas provocam em mim uma reacção.
Sou formidavelmente superior a «eles».
E, por isso, se me revolto, é porque não quero que eles pensem que sou invencível.
Não quero mostrar aquilo que sou. Procuro esconder aquilo que sinto e aquilo que penso. Há uma espécie de satisfação em não deixar que os outros descubram tudo aquilo que existe dentro de mim.
Sinto-me bem assim.
Talvez porque, enquanto escrevo, posso ser exactamente aquilo que sou sem ter de o explicar a ninguém.
Hoje compro uma aliança para a Lina e penso naquilo que ela representa. E, quase ao mesmo tempo, penso em mim, naquilo que sou, naquilo que sinto e na forma como me vejo perante os outros.
É curioso.
Quanto mais escrevo sobre o mundo, mais acabo por voltar a mim.
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