Está por um fio
Sexta-feira, 2 de Dezembro de 1977
E voltou a acontecer. Desta vez, para pior.
Quase cortamos por completo os nossos encontros. Durante a semana já não nos podemos ver. O tio vai buscá-la ao trabalho e leva-a, e assim resta-nos apenas o sábado. Mesmo nesse dia, só podemos estar juntos entre cinco e vinte e cinco minutos.
É pouco tempo. Muito pouco para aquilo que eu quero viver com a Lina.
Mas o que interessa é vermo-nos.
Mesmo que sejam apenas alguns minutos, quero vê-la, estar com ela, sentir que ainda existe aquele espaço que é nosso. E, se chegar o momento em que seja totalmente impossível estarmos juntos, arranjarei maneira de lhe fazer chegar às mãos a minha correspondência.
Não vou deixar que tudo termine simplesmente porque nos fecham as portas.
Não vencerão.
Não será o ódio nem a guerra que vencerão o amor. Se há alguma coisa capaz de o vencer, essa coisa é a morte. E eles vêem a morte como um acto natural de todos os dias, levando-me a acreditar que é isso que esperam.
É isso que mais me revolta.
Porque aquilo que sentimos não desaparece só porque alguém decide que não devemos estar juntos. Podem diminuir os nossos encontros, podem controlar o tempo que temos, podem tornar cada momento mais difícil. Mas não podem decidir aquilo que se passa dentro de nós.
Enquanto houver uma maneira de chegar até à Lina, eu vou procurá-la.
Nem que seja por algumas palavras escritas.
Nem que sejam apenas alguns minutos.
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