Ser um sábio
Sábado, 11 de Março de 1978
Passei o dia em casa. Não aconteceu nada de especial. À noite, peguei na caneta e saiu-me isto:Imploro ao sofrimento
que é uma força desleal
que vá para longe, me deixe só,
pois não passo de um mortal.
Ser um sábio, gostava eu,
para poder inventar
uma mágica para o ódio
e transformá-lo em verbo amar.
O amor não vem do homem,
mas sim do animal.
Não fala, mas vê e pensa,
não precisa ser racional.
Seria lógico dizer
que na morte principia a vida
para os mortais como eu,
que não têm a vida perdida.
Quando nascem para viver,
não têm vida para morrer.
Escrevi isto de uma vez. Depois reli e não me pareceu mal. Não me pareceu bem. Pareceu-me verdadeiro, que é o que interessa.
Fico com a ideia de que o sofrimento é uma força desleal. É isso que eu queria dizer. Não é uma coisa que se explique, mas é o que sinto. O sofrimento não avisa, não escolhe, não tem conta. Vem e fica, e não há maneira de o pôr na porta.
Ao fim do dia, fico com o poema na mão e com a sensação de que disse uma coisa que não sabia que sabia. Há dias assim.
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