Palavras ao vento

Domingo, 12 de Março de 1978

Recomecei hoje as corridas matinais. Levantei-me cedo, vesti-me e fui para a estrada. Corri o que pude, que não foi muito, o corpo ainda não está habituado, e o Inverno deixou-o pesado. Mas fui. É o que conta. Já que a moral não tem uma solução tão fácil de obter, ao menos o corpo vai fazendo o que pode.

Corri até ao alto do Ramalho, descansei um bocado, e voltei. Quando cheguei a casa, tomei banho e sentei-me a pensar.

Desde sempre o meu grande mal foi o excesso de bondade. Sempre fui assim. Dou muito, dou quase tudo, e o resultado nunca é a meu favor. Do muito que dou, pouco ou nada me é retribuído. E não exijo. Nunca exigi. Mas clamo, para mim mesmo, por um pouco de atenção. Clamo por um pouco de conforto e de carinho, que me são devidos. Ou será que não são? Ou será que eu proporciono uma visão tão terrível que não mereço nada disso?

Fico com esta pergunta e não tenho resposta. À noite, sentei-me a escrever e saiu-me isto:

Palavras ao vento,
palavras que vão e não voltam.
Palavras que são a aragem nas folhas,
o ruído do bosque,
o marulhar das águas,
tudo de quanto é belo e natural.

Mas não me ouvem,
porque ainda não me viram.

Escrevi isto e fiquei a olhar para o papel. Há uma coisa que me incomoda nestes versos e não sei o que é. Talvez seja a ideia de que falo e ninguém ouve. Talvez seja a ideia de que dou e ninguém recebe. Talvez seja só o cansaço.

Não sei. Sei que falei muito hoje, aqui, comigo mesmo, e que ninguém me respondeu. É o que tenho.


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