Uma mão (pesada) na consciência
Segunda-feira, 13 de Março de 1978
Hoje estive disposto a terminar, de vez, tudo com a Lina.Andei o dia todo com essa ideia. Não é uma decisão que se tome de repente, é uma coisa que se vai acumulando, e hoje chegou ao ponto de eu achar que era capaz. Acabar com tudo. Dizer-lhe que não dá, que não vale a pena, que cada um siga o seu caminho. Acabar antes que ela acabe.
Mas não fiz nada.
Talvez por amor próprio. Talvez porque sou incapaz de voltar a repetir a proeza de outrora, quando despedacei o coração de uma rapariga que me amara como nunca. Ela não precisava de o dizer, eu sentia-o. Se me arrependo de ter rompido com ela? Arrependo-me de como rompi...
Naquele dia, ela, que tanto ansiava para me falar, apareceu a chorar lágrimas verdadeiras e a perguntar-me porque é que eu tinha feito aquilo. Não lhe soube responder. Disse-lhe que tinha de ser, que a sua religião assim o exigia. Foi o que me saiu. Não era a verdade, ou não era toda a verdade, mas foi o que eu disse.
Essa rapariga foi a Dila. E isto devia pertencer ao passado, mas não pertence.
Porque a Dila não era uma rapariga qualquer. Era o centro do meu universo, naquele tempo. Era a pessoa que eu punha acima de tudo, e que me amava como eu nunca fui amado. E eu, em vez de a guardar, virei-lhe as costas sem explicação, deixei-a a chorar sem lhe dizer porquê, e achei que tinha o direito de não dever nada. Não houve motivo. Não houve razão. Houve só uma frieza que eu não sabia que tinha, e que ainda não sei se perdi.
É isto que me pesa. Não é o que se passou com a Lina. É o que se passou com a Dila, e o que isso me diz de mim. Não sei se sou capaz de fazer outra vez. Não sei se sou a mesma pessoa que fez aquilo. Tenho medo de descobrir que sou.
Não vou escrever mais sobre isto. Já disse o que tinha a dizer, mesmo sem o dizer todo.
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