A gata borralheira da família
Terça-feira, 14 de Março de 1978
Hoje uma das minhas irmãs fez anos. Prefiro não referir o nome dela, tal é a minha vergonha que não me sinto digno de escrever o seu nome.Não houve festa. Não houve bolo, nem velas, nem prendas. Houve o dia a passar como os outros, e ela a servir, como serve todos os dias, na casa onde devia ser filha como nós somos filhos, mas ela como empregada dela e de todos.
Esta rapariga, minha irmã, deveria pertencer à família tal como nós todos, seus irmãos. Mas assim não é. Começou por ser posta de parte pela minha mãe — não sei quando, não sei porquê — e depois criou-se um círculo vicioso em que todos nós colaborámos de forma inconsciente. Eu também. Nunca disse nada. Nunca fiz nada. Deixei que acontecesse, e agora ela anda a servir como empregada doméstica, aos dezasseis anos feitos hoje, porque foi o único meio que a minha mãe arranjou para a manter fora de casa.
Ela, porém, tornou-se desleixada, ou se calhar revoltada, não sei. Quem sabe, talvez pelo tratamento que recebe. Talvez seja isso. Talvez seja o que se torna uma pessoa quando ninguém olha para ela como gente.
Passei o dia com isto na cabeça, e à noite, quando me sentei a escrever, ainda estava com o aniversário dela a pesar-me. Não pelo aniversário em si, mas pelo que ele revela. A vida tem os seus "quês" de insólito, e não devemos surpreendermo-nos com o que se tornou visão normal para muita gente. O mal é que não acreditamos que em todo o erro há algo de muito acertado.
Não sei o que isto quer dizer ao certo. Sei que ela fez anos hoje e que ninguém deu por isso. E eu, que escrevo isto, também só dei por isso porque me lembrei. É o que tenho para lhe dar, uma lembrança tardia, escrita num diário que ela nunca vai ler.
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