Perdi a vontade de lhe telefonar

Quarta-feira, 15 de Março de 1978

Voltei a ver a Lina. Como das outras vezes, eu no trólei, ela fora.

Já não experimento a sensação de a ver de perto. Já não me encoraja essa ideia. Mas, sempre que passo naquele local, tenho tendência a olhar, a ver se a vejo. É mais forte do que eu. Sei que não vou sair do trólei, sei que não vou falar com ela, sei que não vai acontecer nada. E ainda assim olho.

Se pudesse estar com ela, sentir-me-ia melhor. Não por amor, por peso. Ficaria com menos peso na consciência se pudesse tirar certas dúvidas. Há coisas que eu não sei, e que só ela me poderia dizer. Mas não vou perguntar. Não sei se quero saber.

Perdi já toda a vontade de lhe telefonar. É verdade. Já não me apetece pegar no telefone, já não me apetece ouvir a voz dela do outro lado, já não me apetece ficar pendurado. Mas não perdi o prazer de a possuir. Isso continua. Nunca nenhuma rapariga me fez sentir assim, e não sei o que hei-de fazer com isso.

Já tive outros amores. Em todos tive uma provação diferente, e com todos aprendi alguma coisa. Todas as que conheci tinham um comportamento incomparável e um modo de ser diferente. Fico a pensar nisto, e percebo que não sei o que é comum a todas elas. Talvez seja eu. Talvez seja o que eu procuro, e que não encontro. Ou talvez seja o que eu faço, quando encontro.

Hoje não telefonei. Amanhã também não vou telefonar. E, no entanto, quando passar naquele local, vou olhar. É o que tenho.


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