Biografia sentimental
Quinta-feira, 16 de Março de 1978
Hoje não tenho tema. O dia passou-se sem nada que valha a pena registar. E, por falta de tema, retomo o fio à meada e recomeço a minha biografia emocional.Naquele tempo, a vida era fácil, quando eu era um miúdo. Eu devia ter um "charme" escondido no meu corpo de menino, porque desde sempre tive um fraco pelo sexo oposto, e eram fáceis e realizáveis todos os projectos. Não havia obstáculos. Não havia dúvidas. Não havia medo de dizer ou de não dizer. Havia só a vontade, e a vontade bastava.
A primeira rapariga, se bem me lembro, chamava-se Inês. Uma pequerrucha como eu. Teria eu cinco anos, no máximo, nesse tempo. Agora nem tão pouco me lembro dela, do rosto, da voz, de nada. Sei o nome e sei que existiu, e é tudo.
Morava eu numa aldeia perto de Viseu, Santa Cruz da Trapa. Lembro-me bem da aldeia, lembro-me de que era pequena e de que havia campos. Depois fui morar para Vila Nova de Gaia, e a substituta foi a Guidinha. Éramos muito amigos, porque estávamos sempre sós. Sempre. Ninguém nos vigiava, ninguém nos separava. Hoje, naturalmente, seria um escândalo. Naquele tempo, não era nada, era só duas crianças a brincar.
Que tempo!
Passei a noite a escrever isto e a lembrar-me de coisas que já não sei se aconteceram ou se inventei. A memória faz isso, enfeita. Não sei se a Inês existiu como eu a recordo, ou se é uma invenção que eu fiz para ter um princípio. Talvez todas as biografias comecem assim, com uma rapariga que a gente já não se lembra bem se era real.
Hoje não telefonei. Hoje não a vi. Hoje fui só um rapaz de dezoito anos a lembrar-se de si mesmo aos cinco.
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