Um dia sem a Lina
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 1978
Hoje não estou com a Lina.
Vejo-a, mas está longe demais para lhe falar. É estranho como uma pessoa pode estar diante dos nossos olhos e, ainda assim, permanecer tão distante. Basta uma distância que, noutro momento, talvez nem notasse, para transformar a presença numa ausência.
Depois de ontem, depois de ter escrito aquilo que sinto por ela com uma intensidade que quase não consigo conter, hoje essa distância pesa-me mais. Ontem parecia-me que nada poderia interferir entre nós. Hoje basta não conseguir aproximar-me para sentir como é frágil aquilo que tanto valorizo.
Não há discussão, não há más notícias, não há sequer uma palavra que possa interpretar. Há apenas este desencontro.
E talvez seja precisamente isso que me incomoda. Quando existe um problema, posso pensar nele, procurar uma explicação, tentar encontrar uma solução. Mas quando simplesmente não consigo chegar até ela, fico entregue aos meus próprios pensamentos.
Vejo-a e não falo com ela.
É pouco para um dia, mas para mim é suficiente para o tornar diferente.
Volto para casa com aquela sensação incómoda de quem esteve perto do que mais desejava e, mesmo assim, não o conseguiu alcançar.
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