Visão pessimista da vida


Domingo, 11 de Dezembro de 1977


Passei o dia com a Lina e saí dali com aquela sensação familiar de que a presença dela tem propriedades quase químicas na minha cabeça.

Basta estar com ela para o dia ganhar outra espessura, para a luz mudar de sítio, mesmo quando trago cá dentro uma tropa de pensamentos que se recusam a dar tréguas. É curioso como alguém consegue ser, ao mesmo tempo, um refúgio e uma espécie de lente de aumento para tudo o resto.

Depois, claro, regressei a casa. E quando a noite se fechou sobre o quarto, o silêncio obrigou-me a olhar de frente para o reverso das coisas.

Estive a pensar nisto, ninguém compreende o sofrimento alheio a uma distância segura. Olhar para a dor dos outros como quem vê passar o comboio não serve de nada, é preciso deixar que qualquer coisa dessa mesma ferrugem nos toque por dentro, tactear as fundações do que os mói, porque só quem aceita carregar um pouco do peso dos outros é que os consegue decifrar a sério.

E depois há uma ideia ainda mais áspera que me andou a morder a cabeça. Por mais rectidão que tenhamos, por mais limpas que sejam as nossas intenções, em vida quase nunca ninguém dá por isso. É como se as nossas qualidades só ganhassem relevo quando já não dão trabalho, como se o mundo precisasse da morte ou da ausência para conseguir ler o que fomos sem o ruído do dia a dia a atrapalhar.

Pode ser só o tédio habitual de quem não sabe desligar o cérebro, ou uma daquelas derivas pessimistas que me dão às tantas da noite.

Mas hoje o mundo pareceu-me feito exactamente disto, da urgência luminosa de estar com a Lina e de uma lucidez fria que me deixa a interrogar se vale a pena tentar compreender o que quer que seja.


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