A recusa

Domingo, 4 de Junho de 1978

Hoje não deixei qualquer outra entrada no diário. Ficou apenas este poema.

«O banquete do inferno» continua a figura do homem da montanha que fui construindo nos dias anteriores, mas agora a sua posição é mais radical: já não se trata apenas de observar, ensinar ou ser excluído. É recusar.

Recuso ó gentes
O pão que amassais com farinhas de Belzebu
E fogo do inferno
Recuso-me a participar
No jogo da vossa vida corrompida
De prazeres insaciáveis
Recuso-me a participar no vosso banquete
Cujo ódio é servido como aperitivo
O vinho e o sangue que sugas
Dos pobres corações desprotegidos
E que estão à vossa mercê
Os convidados
Horrendas formas cadavéricas
Vagueiam sobre as nossas cabeças
Como vampiros sedentos do nosso sangue
Estou farto, não suporto mais
Esta sociedade corrupta
Há que enterrar o ódio e queimar os corpos
Depois, reconstruir tudo de novo
Sem nos preocuparmos com o progresso
Se o homem é mau, foi, pois,
A sociedade que o transformou
Recuso a sociedade

É uma recusa absoluta. O banquete transforma-se numa imagem da sociedade que o poema rejeita: o pão, o vinho, o sangue e os convidados pertencem todos a um mesmo cenário de corrupção e violência.

No fim, não fica uma tentativa de conciliação. Fica apenas a palavra com que o poema começou e que também o encerra: recuso.



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