O homem preocupado
Segunda-feira, 5 de Junho de 1978
O homem preocupado sai de casa
Para que os pés ocupem o cérebro
E pensem por ele.
É uma forma de esquecer
Ou uma forma ambígua de sapiência,
De compreender ideias.
É uma cambalhota do dever.
O homem, mamífero primata, ser racional,
Não é mais do que uma peça
Da complicada engrenagem da sociedade,
«In cauda venenum», na cauda do veneno.
O homem não é mais, homem,
Frígido como o gelo, pesado como um rochedo.
O homem não é mais homem.
Ó homem da montanha, tens razão,
Aboliste da tua vida
O sectarismo que corrompe a vida humana.
Enquanto escrevo estas últimas linhas, fico a pensar se não estarei também a falar de mim quando falo deste homem. Talvez esteja. Há qualquer coisa nele que reconheço e que me incomoda, como se também eu fizesse parte da engrenagem que critico.
Não sei se tenho razão em recusar tanto aquilo que me rodeia. Sei apenas que não consigo aceitar as coisas simplesmente porque sempre foram assim. Talvez seja essa a minha maneira de procurar uma saída, mesmo sem saber ainda para onde quero ir.
Por hoje, fico com esta ideia: não quero ser apenas mais uma peça.
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