A sombra de um homem

 

Terça-feira, 6 de Junho de 1978

Dir-se-ia que o peso da idade o verga, mas não
Aquele é um gesto de vergonha da sua situação
À noite chora o desgosto de ser homem
De dia, baixa os olhos para os pés
E julga ser o gigante que criou o mundo
Julga ver a humanidade a seus pés,
Onde o mais fraco se deixa vencer
Pobre louco, vejo-o a acordar o Sol matutino
E a deitá-lo no escurecer da noite
Não é mais do que uma sombra
Já duvido que exista,
Mas é tão real que não posso deixar de acreditar
No seu ser corpóreo, materializado perante o mundo
De dia senta-se de costas para mim
Sempre de olhos postos no chão
A ver o que os outros não conseguem ver
Vasculhando na sua mente
Por algo que lhe atraia a atenção
Porém, antes de chegar a noite,
Desaparece com o Sol

Agora que acabei de escrever isto, nem eu sei muito bem o que pensar. Esta sombra parece-me estranha. Às vezes tenho a sensação de que estou a falar de outra pessoa, mas outras vezes parece que estou a falar de mim.

Talvez seja apenas alguém que inventei para dizer aquilo que não sei dizer de outra maneira. Ou talvez não. O certo é que há qualquer coisa naquele homem que me incomoda.

Não sei bem o que procuro quando escrevo estas coisas. Talvez procure apenas perceber melhor o que penso. Mas, por enquanto, continuo sem perceber grande coisa.



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