Divagações

 

Sexta-feira, 30 de Junho de 1978

Hoje dei por mim a negociar com a minha própria alma os meus pensamentos, como se tudo aquilo que penso tivesse um preço.

É uma ideia estranha, mas quanto mais penso nela mais me parece que o homem passa a vida a comprar e a vender coisas. Compra aquilo que deseja, vende aquilo que já não quer, troca umas coisas por outras e estabelece sempre um preço, mesmo quando não sabe muito bem qual é.

Talvez eu faça o mesmo com os meus pensamentos.

Há coisas que quero guardar e outras de que gostava de me libertar. Mas não sei se é possível escolher aquilo que fica na minha cabeça. Às vezes uma coisa que julgava esquecida volta de repente, enquanto outras, que queria conservar, parecem desaparecer.

Talvez seja esta a razão de viver do homem: fazer e desfazer, avançar e voltar atrás, sem ter de justificar tudo aquilo que faz.

Mas então o que somos nós no meio disto tudo?

Escrevi:

O homem,
Essa máquina do destino,
Único método de sobrevivência da alma e do corpo
É um ser camuflado
Da pior maneira
Procurando
Por intermédio desta
Realizar-se
Não é fácil,
Mas impossível
A realização do corpo e da alma
Não está ao nível
De qualquer ser vivente. 

Enquanto escrevia, fiquei com a sensação de que estou a tentar perceber qualquer coisa que ainda não consigo explicar.

Falo do homem como se estivesse a falar de todos, mas também estou a falar de mim. O corpo quer uma coisa, a alma parece querer outra e, no meio dos dois, fico eu a tentar perceber qual deles devo ouvir.

Talvez seja isso que torna tudo tão complicado.

Quero realizar-me, mas nem sei exactamente o que isso significa. Às vezes penso que sei. Outras vezes parece-me que ando a tentar encontrar um lugar onde consiga estar bem comigo próprio.

E talvez seja essa a parte mais difícil: descobrir quem sou quando ainda estou a mudar.


Danton Von Iasa



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