Futurologia
Quinta-feira, 29 de Junho de 1978
Ao começar este sexto (caderno) diário, senti que devia deixar algumas palavras sobre aquilo que estou a fazer. Considero os meus escritos um trabalho da mente e talvez por isso não seja fácil pôr no papel aquilo que penso sem que alguma coisa se perca pelo caminho.
Uma ideia existe primeiro na minha cabeça. Parece-me clara enquanto está lá. Depois começo a escrevê-la e já não sei se aquilo que fica no papel é exactamente o que pensei.
É esta a dificuldade de escrever.
Mas é também por isso que quero continuar.
Proponho-me, nos próximos meses, despir a minha mente em favor da recordação. Quero deixar aqui aquilo que penso agora, enquanto ainda faz parte de mim, porque sei que mais tarde estas páginas poderão ser lidas por outra pessoa que também serei eu.
Talvez nessa altura critique o que hoje escrevo. Talvez encontre erros, contradições ou coisas que pudesse ter escrito melhor. Talvez até queira corrigir algumas delas.
Mas não posso escrever hoje com os olhos de amanhã.
Hoje só posso escrever com aquilo que penso e sinto agora.
A memória também não é uma coisa parada. O que hoje me parece importante pode deixar de o ser mais tarde. Uma recordação pode mudar quando voltamos a ela, e talvez seja por isso que quero deixá-la escrita antes que o tempo a transforme demasiado.
Qualquer semelhança nos meus escritos é também prova do meu grande interesse pela leitura e da minha memória para ditos de grandes escritores, poetas, filósofos e até ditos populares. Muitas coisas ficam na nossa cabeça sem sabermos exactamente quando voltam.
Talvez escrever seja também uma maneira de descobrir o que ficou.
O homem peca pelo erro, segundo dizem.
Danton Von Iasa
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