Prólogo Volume VI

Há momentos em que uma pessoa percebe que já não consegue continuar exactamente da mesma maneira, mesmo sem saber ainda para onde deve ir.

António chega a este novo Volume, o sexto, depois de meses em que muita coisa mudou dentro dele. Algumas mudanças foram provocadas pelo que viveu. Outras nasceram de coisas que ficaram por dizer, por compreender ou simplesmente por esquecer. E há ainda aquelas que talvez só agora comecem a revelar a sua verdadeira importância.

Até aqui, escrever foi sobretudo uma maneira de guardar os dias.

Agora começa a ser outra coisa.

António escreve porque sente necessidade de se aproximar de si próprio. Já não lhe basta contar o que aconteceu. Quer perceber o que ficou depois de cada acontecimento. Quer voltar às recordações, mexer nelas, confrontá-las com aquilo que pensa no presente e descobrir se ainda é o mesmo rapaz que as viveu.

Não é uma tarefa fácil.

A memória não devolve as coisas exactamente como aconteceram. Traz imagens, sentimentos, pessoas, frases, momentos que pareciam esquecidos. Às vezes aproxima-se da verdade; outras vezes confunde-a. E António começa a descobrir que também dentro de si existem zonas que não conhece inteiramente.

É nesse território que este novo volume começa.

Depois de tudo o que ficou para trás, a adolescência já não pode ser vista apenas como uma sucessão de acontecimentos. As experiências começaram a deixar marcas mais profundas. As relações, as perdas, as desilusões, os desejos e as perguntas sobre o futuro foram construindo uma pessoa que ainda está longe de estar acabada.

António está a crescer, mas crescer não significa encontrar respostas.

Por vezes significa descobrir perguntas novas.

A escrita acompanha essa mudança. As páginas começam a ganhar outro peso. A poesia torna-se mais frequente, o pensamento mais abstracto e a necessidade de compreender a própria existência mais evidente. Há momentos em que António parece afastar-se do mundo concreto para procurar qualquer coisa dentro da própria mente.

Ainda não sabe exactamente o que procura.

Mas procura.

E talvez seja essa procura que melhor define este novo momento.

Surge também uma necessidade de separar aquilo que sente daquilo que consegue dizer. Há pensamentos que não cabem facilmente na linguagem dos dias. Há ideias que precisam de outras palavras, de outros nomes, talvez até de outra identidade para poderem existir.

É neste espaço que começa a surgir o heterónimo Danton Von Iasa.

Por enquanto, é apenas uma assinatura.

Um nome que aparece no papel e que parece abrir uma possibilidade diferente. Não sabemos ainda onde começa António e onde poderá começar Danton. Talvez nem o próprio saiba. Pode ser apenas uma experiência literária, uma personagem, uma máscara ou uma parte de si que procura uma forma de se exprimir.

O importante, neste início, não é encontrar uma explicação.

É perceber que alguma coisa está a nascer.

Este volume começa, por isso, num momento de transição. O rapaz que escreveu os diários anteriores continua presente, com as suas recordações, os seus afectos, as suas contradições e as suas feridas. Mas começa a existir também uma vontade diferente de olhar para dentro.

A consciência cresce.

E com ela cresce também a dor.

Não necessariamente uma dor nova. Muitas vezes, a dor nasce quando aquilo que estava escondido começa finalmente a ser visto. Algumas coisas tornam-se mais difíceis precisamente porque António começa a compreendê-las melhor.

É esse o paradoxo deste novo caminho.

Conhecer-se pode trazer alguma clareza, mas também pode obrigar a enfrentar aquilo que preferíamos não ver.

António ainda está longe de saber até onde esta procura o levará. Ainda acredita que talvez consiga organizar os pensamentos, encontrar explicações e transformar a escrita numa espécie de mapa para se orientar.

Mas um mapa não impede que existam labirintos.

E este volume começa justamente quando António entra num deles.

Não sabemos ainda quais serão as respostas.

Sabemos apenas que ele continuará a escrever.

E, enquanto escrever, continuará também a mudar.



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