Epílogo - Junho de 1978 - Volume 5

 

Não apenas porque terminou uma etapa e começou outra, mas porque, ao longo destes dias, António foi-se afastando cada vez mais da necessidade de encontrar respostas imediatas para aquilo que lhe acontecia. Depois de tudo o que vivera nos meses anteriores, havia agora um espaço diferente à sua frente. Um espaço que ainda não sabia muito bem como ocupar.

A escrita tornou-se uma das formas de o fazer.

Ao longo do mês, o diário deixou de ser apenas o lugar onde os acontecimentos eram registados. Tornou-se um território de procura. António escreve para recordar, mas também para compreender. Escreve sobre aquilo que viveu, sobre aquilo que sente e, cada vez mais, sobre aquilo que não consegue explicar.

E essa diferença é importante.

A poesia ocupa um lugar cada vez maior. Às vezes nasce de uma imagem, outras vezes de uma inquietação, de uma recordação ou de uma pergunta para a qual não existe resposta. E quanto mais escreve, mais as palavras parecem afastar-se da realidade concreta dos dias.

Não é ainda uma escrita segura.

Há excessos, contradições, ideias que ficam suspensas e pensamentos que parecem não chegar a lado nenhum. Mas talvez seja precisamente aí que esteja a mudança. António já não escreve apenas para dizer o que aconteceu. Começa a escrever para descobrir o que pensa.

É também por isso que a memória ganha outro peso.

Recordar já não significa simplesmente voltar atrás. Significa trazer o passado para o presente e confrontá-lo com aquilo que António é agora. Algumas recordações ainda doem. Outras parecem perder força. E há aquelas que, mesmo quando julgadas esquecidas, regressam sem pedir licença.

No fundo, António começa a perceber que não controla completamente aquilo que guarda dentro de si.

No final do mês, essa procura chega mesmo à identidade. Surge a ideia de que o homem é uma espécie de ser dividido entre corpo e alma, entre aquilo que deseja e aquilo que pensa, entre aquilo que foi e aquilo que está a tornar-se.

Ainda não há uma resposta para essa divisão.

Há apenas a consciência de que ela existe.

E é talvez essa a verdadeira passagem de Junho.

António terminou um diário, mas não terminou a necessidade de escrever. Pelo contrário. Quando chega aos últimos dias, a escrita parece já preparar qualquer coisa diferente. A ideia de “despir” a mente para a recordação, lançada no início do sexto diário, mostra que o acto de escrever começa a ganhar uma importância que ultrapassa o simples registo da adolescência.

O rapaz que escreve ainda não sabe o que está a construir.

Nós, que podemos olhar para estas páginas em conjunto, percebemos que alguma coisa começou a mudar.

A poesia tornou-se mais intensa. O pensamento tornou-se mais abstracto. A realidade começou a ser filtrada pela memória, pela imaginação e pela necessidade de António se compreender a si próprio.

E, quase sem dar por isso, começa também a nascer uma outra voz.

Danton Von Iasa.

Ainda não sabemos exactamente quem é.

Talvez seja apenas um nome. Talvez seja uma forma de António experimentar outra maneira de escrever. Talvez seja qualquer coisa mais profunda que ele próprio ainda não compreende.

Junho não responde.

Deixa perguntas.

E talvez seja precisamente por isso que termina assim: não com uma conclusão, mas com a sensação de que António está prestes a entrar num território novo, onde a escrita já não será apenas testemunha daquilo que vive.

Começará a ser também parte daquilo em que se está a transformar.



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