Jogo de xadrez

Quinta-feira, 20 de Julho de 1978

Há coisas que ficam paradas onde as deixámos, à espera de que alguém as venha terminar. Passei por uma e decidi escrever:

Jogo de xadrez

Havia um jogo
Que outrora iluminava os serões
E se encontrava sempre rodeado de apreciadores
Agora confunde-se
Contra o fundo escuro das águas-furtadas
Coberto pelo pó de décadas
E estalactites de teias que descem até ao chão
Formando colunas sombrias
Alastrando-se aos móveis
Na vã tentativa de apanhar algum insecto incauto
As pedras mantêm os seus lugares
Como se o jogo fosse começar
Apenas um peão caído e a falta de um rei
Fazem o jogo esperar
Ou talvez tivesse acabado antes de começar
Os cavalos, como que á espera da ordem de ataque
Olham de frente o adversário
Os peões aguardam ordem de avançar
Mas o jogo não começa.

Danton Von Iasa

Falta uma peça e ninguém dá por isso. O tabuleiro continua montado, os cavalos olham de frente, os peões esperam. Às vezes penso que também eu estou assim: pronto para jogar um jogo que já acabou.


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