O sorriso amargo do mendigo

 

Terça-feira, 20 de Junho de 1978

O menos pobre também sorriu
Escondendo a dor
Por detrás da máscara invisível.
O vagabundo esmola pela rua,
Vestindo a mesma roupa que foi sua
E não tem mais nada de amor.
A vida que outrora fora sua
Vagueava de porta em porta,
Esmolando,
Ao serviço da depauperação moral
De toda a gente.
Cada esmola é uma bofetada dada,
Cada recusa uma esmola ofertada.
O menos pobre
Também tinha necessidade
De ser feliz uma vez na vida.

Há qualquer coisa neste homem que me incomoda. Talvez porque seja fácil passar por alguém assim e não olhar. Dar uma moeda ou não dar parece uma coisa pequena, mas para quem está ali pode ser tudo.

Também não sei se a esmola resolve alguma coisa. Talvez apenas esconda durante um momento aquilo que ninguém quer ver.

O que sei é que ninguém devia precisar de pedir para ter direito a sorrir.

E talvez seja esse o sorriso amargo de que falo: sorrir por fora, quando por dentro não há razão nenhuma para fazê-lo.



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