A Geometria da Ausência

Terça-feira, 23 de Setembro de 1975

A manhã nasceu com aquele silêncio que parece suspender o ar, como se o mundo respirasse mais devagar, a ver se eu reparava nele. E eu reparei — porque quando ela não aparece, tudo fica mais nítido, até o vazio.

É cansativo estar sempre à espera… e, no entanto, cá estou, como um discípulo da incerteza, a medir passos no mesmo sítio onde costumávamos cruzar destinos. Há um desgaste que não se vê ao espelho, mas sente-se no corpo: a dúvida pesa mais do que qualquer desilusão.

Hoje dei por mim a tentar adivinhar razões que talvez nem existam. Será que a Dila perdeu aquele brilho que ligava os nossos dias? Ou estará apenas encurralada no labirinto onde a família decide por ela? Há forças invisíveis que sopram contra o que sentimos — e eu, rapaz ainda a aprender a ser inteiro, fico ali a tentar perceber para que lado me leva o vento.

Se ela não vem… o que significa?
Se ela vem… o que ainda espera de mim?

Há perguntas que se colam à pele como chuva fria. E eu caminhei com elas o dia inteiro, a desejar uma resposta simples, humana, qualquer coisa que me dissesse se o caminho adiante é uma clareira ou um poço.

Mas o coração — esse teimoso — insiste em não desistir. Ainda acredita. Ainda tenta. Ainda volta ao mesmo lugar.

E eu deixo-o ir, porque às vezes a esperança é a última teimosia que nos mantém de pé.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »