O eco de um encontro que não aconteceu

Quarta-feira, 24 de Setembro de 1975

Hoje saí de casa com aquela esperança teimosa que ainda me sobra — a esperança de que a Dila aparecesse no sítio combinado, como sempre fazíamos antes de tudo começar a descarrilar. Fui com o Manel, quase a correr por dentro, como se chegar mais depressa ao encontro fosse o mesmo que garantir que ela lá estaria.

Mas não estava.
Veio a irmã no lugar dela.

Sorriu-me com a cordialidade possível, mas o vazio dela — o dela, da Dila — ficou-me ali parado no peito, sem saber para onde ir. O Manel tentou disfarçar a situação, mas a verdade é que só quis voltar para casa.

À tarde, ele foi ver a bébé a casa da Dila. E juro: pela primeira vez senti ciúmes de um amigo. Não daqueles maus, mas daquela pontada seca de quem pensa: porque é que ele ainda entra naquele mundo e eu já só o vejo de fora?

O resto do dia passou-me pelas mãos sem deixar marca. À noite, deixei-me ficar diante da televisão, mais por inércia do que por vontade.

Dou por mim a perceber que até o diário anda a estranhar-me: escrevo menos, escrevo tarde, escrevo só quando alguma coisa me lembra que existo. E quase sempre… quase sempre essa coisa tem o nome dela.

Hoje, sem a Dila — nem presença, nem pensamento claro — o dia ficou reduzido a isto: um encontro marcado… e falhado mais uma vez. E a certeza incómoda de que voltar à normalidade está a ser tudo menos simples.


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