Onde Começa o Coração
Segunda-feira, 22 de Setembro de 1975
O dia amanheceu como quem não sabe muito bem se vale a pena nascer — cinzento, hesitante, quase tímido. Caminhei pela manhã com o peso de quem leva dentro do peito um enigma maior do que eu. E, no entanto, sou só um rapaz de quinze anos a tentar decifrar a forma exacta do amor.
Depois da conversa com a Dila. Ecos na minha mente ressoam : “Talvez seja novo demais para me comprometer…”
Eu que achava saber tão pouco da vida, descobri de súbito que sabia ainda menos do coração.
Ao descer a rua, pensei que amar talvez fosse isto: uma espécie de labirinto onde se entra por impulso e depois se anda às cegas, com as mãos estendidas a tactear as paredes, à espera de um fio de luz. Mas neste instante, nenhuma luz vinha. Nem da Dila. Nem da minha própria coragem.
Perguntei-me, pela primeira vez de forma séria, se aquilo que sinto é mesmo amor — ou se é só uma paixão juvenil, como os adultos costumam dizer com aquele ar superior que tanto irrita. Talvez eles é que estivessem enganados, pensei. Talvez o amor não tenha idade definida, como certas árvores que florescem antes do tempo apenas porque o mundo ficou demasiado bonito de repente.
Mas depois lembrava-me do olhar dela — aquele olhar meio doce, meio assustado, de quem parece sempre a fugir de qualquer coisa invisível — e voltava a cair no mesmo poço de dúvidas.
Ela acredita que o amor dela precisa de protecção… ou de permissão?
E a religião dela, esse muro silencioso que nunca se vê mas sente-se sempre ali, entre nós? Será esse muro mais alto do que ambos juntos?
Eu não sei responder. E essa ignorância dói-me.
O mais estranho é que, no meio da confusão, comecei a desconfiar que amar podia ser uma coisa mais simples do que aquilo em que andava a transformar o sentimento. Talvez o amor não pedisse certezas, nem maturidade, nem sequer autorização. Talvez bastasse querer bem. Talvez bastasse cuidar.
Mas como cuidar à distância? Como amar quando o caminho até ela está cheio de portas fechadas — algumas por prudência, outras por medo, outras ainda por imposição?
Sentei-me no muro do costume, os braços pendidos, o pensamento a rodopiar como um pião cansado. Pela primeira vez, tive medo de que aquilo que sentia fosse grande demais para a minha idade… e pequeno demais para vencer tudo o resto.
E no entanto, dentro de mim, a verdade murmurava com a firmeza discreta de quem já sabe:
Se isto não é amor, então o amor deve ser uma coisa ainda mais assustadora — e ainda mais bonita.
O sol rompeu por entre as nuvens num gesto breve, quase um sorriso tímido. Respirei fundo. Sentia-me perdido, sim — mas havia uma espécie de esperança a chamar-me, aquela esperanças que aparece justamente quando tudo parece falhar.
Talvez amar fosse crescer.
E talvez estar perdido fizesse parte desse crescimento.
Com esta ideia, ergui-me.
Não tinha respostas, mas tinha caminho. E, mesmo sem saber, caminhava sempre na direcção dela.
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