Entre a Fé e o Medo

Domingo, 21 de Setembro de 1975

O dia começou com o peso do silêncio que se instalou desde a conversa de ontem. As palavras da Dila ainda ecoavam na minha mente, cada frase uma corrente a puxar-me para dentro de um mar de dúvidas. A sua fé, pacificadora na essência, parecia não querer erguer muros entre nós, mas será que fora dela a interpretação da sua família era diferente?

Passei a manhã sozinho, a vaguear entre as ruas conhecidas, cada passo carregado de questionamentos: Que estigmas terão colocado sobre mim? Que ideias moldaram na mente dela sobre quem eu sou e quem posso ser? Senti, pela primeira vez, que a barreira que nos separa talvez não seja apenas a distância ou o tempo, mas um labirinto de conceitos e convicções, impostos antes que eu pudesse existir na vida dela.

Ao longo do dia, a imaginação tornou-se tanto refúgio como prisão. Pensei nos pais dela, no modo como extremam a interpretação dos princípios que a Dila segue. Talvez estejam a tentar protegê-la, ou talvez a limitar o mundo que ela pode explorar. A religião dela não me afasta, mas os medos plantados pelos outros talvez o façam. Perguntas surgem sem respostas: terão outros planos para a filha? Ver-me-ão como uma ameaça silenciosa?

O entardecer trouxe apenas sombras longas e frias. Sentei-me no muro de minha casa, olhando para o céu que escurecia cedo, e o medo do futuro enredou-me o coração. A dúvida tornou-se companheira: se um dia tudo se tornar impossível, se a liberdade de escolher for-lhe negada, o que restará do que já julgava um dado adquirido?

O dia termina assim, com receio, com uma sensação de fragilidade inesperada. Tudo que mais quero é segurá-la perto de mim, mas a incerteza espreita, lembrando-me de que o amor, por vezes, é tão delicado quanto um cristal prestes a cair.


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