Entre fé e coração
Sábado, 20 de Setembro de 1975
Hoje encontrei finalmente a Dila. A ansiedade que me acompanhou durante toda a semana parecia dissipar-se com cada passo que dava em sua direcção. Estávamos sentados no muro do adro da igreja afastado do burburinho, rodeados pelo silêncio que nos permitia falar com liberdade.
– António, tens um ar muito pensativo – começou ela, olhando-me com curiosidade. – Algo te preocupa?
Respirei fundo, tentando ordenar os pensamentos que se agitavam no meu peito.
– Dila… quero entender melhor a tua fé. Quero saber como ela nos… afecta. Como é que a tua religião vê a relação entre pessoas, entre jovens que não são da mesma religião, e como isso se reflecte fora da vossa comunidade.
Ela assentiu, compreendendo.
– Sabes, para nós, o amor é algo sério e profundo. As Testemunhas de Jeová valorizam muito o compromisso, o respeito pela palavra de Deus e pelo próximo. Namorar não é apenas estar junto, é construir algo que Deus possa abençoar. Por isso, não é apenas o coração que decide, mas também a fé que seguimos.
– Então… imagina que dois jovens têm uma relação e que apenas um deles é Testemunha de Jeová, se querem estar um com o outro, como é que isso se encaixa? – perguntei, tentando não parecer demasiado ansioso.
– Não têm de mudar a sua fé para se acompanharem, António. Mas têm de compreender os limites que seguimos, e respeitá-los. O que é mais importante é o respeito mútuo. Se esse jovem aceitar as nossas regras, se respeita os princípios, podem ter algo sólido, mesmo fora do que a maioria vê. – explicou, com o olhar firme e sereno.
– Respeito, sim… mas isso significa que há coisas que não podem fazer um com o outro? – perguntei, quase com receio da resposta.
– Sim, algumas coisas que o mundo considera normais, nós evitamos. Mas não significa que não possamos partilhar momentos, compreender-nos, apoiar-nos… – disse ela, com um sorriso suave. – Amar também é esperar, é aprender a controlar os impulsos, António. É isso que nos fortalece e nos protege.
Fiquei a refletir enquanto caminhávamos lado a lado, absorvendo cada palavra. Compreendi que o amor, quando aliado à fé, exigia paciência, respeito e um olhar atento ao que é essencial para o outro. Aprendi que não se tratava de controlar sentimentos, mas de compreender o mundo dela, de encontrar equilíbrio entre o que sinto e o que a fé dela pede.
O dia passou rápido, mas deixou-me mais consciente. Aprendi que amar alguém não é apenas sentir, mas também compreender, respeitar e adaptar-me sem perder-me a mim próprio. Senti-me mais preparado para enfrentar o futuro incerto, com Dila ao meu lado, sabendo que o respeito e a compreensão poderiam ser a base de algo que durasse.
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