O peso do silêncio
Sexta-feira, 19 de Setembro de 1975
Hoje, a manhã surgiu como uma cortina cinzenta sobre o meu espírito. Esforcei-me com um vigor quase sobre-humano para não pensar nos últimos dias, para não sentir o vazio que insistia em encher-me o peito. Cada pensamento sobre a Dila era uma corrente elétrica que ameaçava rasgar a frágil armadura que construí em torno de mim.
Tentei concentrar-me na rotina: levantar-me, lavar o rosto, preparar o pequeno-almoço. Mas até as tarefas mais simples pareciam diluir-se no peso do meu próprio silêncio. Caminhei pelas ruas de S. Pedro como se estivesse dentro de um filme em câmara lenta, onde os sons se tornavam eco e cada rosto desconhecido me recordava a dela, cada gesto alheio parecia tocá-la. Tudo me lembrava dela: o vento que agitava as folhas, o riso distante de crianças, até o ritmo da minha própria respiração.
Não quero pensar, não quero sentir. Quase não quero existir. Tentei ocupar a mente com números, exercícios, o barulho das crianças a jogar a bola, mas mesmo estas distrações eram apenas lenços lançados sobre uma ferida que não cicatrizava.
Sentei-me à sombra de uma árvore e fechei os olhos. Respirei fundo, como quem tenta enganar o próprio coração, e percebi que não há truque que funcione. O que me espera amanhã é um enigma silencioso. Não sei o que o futuro nos reserva, nem se o nosso mundo partilhado poderá resistir à realidade que insiste em espreitar-nos.
O dia arrastou-se, lento e pesado, marcado pelo nada. Senti o peso do tempo, cada hora longa a esmagar-me o ânimo. Olhei para as sombras que se alongavam na rua e percebi que nelas se escondia a incerteza que me consome: um futuro indecifrável, uma Dila distante, talvez já alheia a mim, ou apenas por enquanto invisível.
Quando a noite finalmente caiu, não havia mais palavras para escrever ou gestos para executar. Restava apenas a constatação de que o silêncio dentro de mim era maior do que qualquer esperança, mais profundo do que qualquer abraço ou olhar perdido. O mundo seguiu o seu caminho, indiferente ao meu desalento, e eu fiquei a sós com a minha própria alma, a sós com a ausência dela, tentando, com esforço sobre-humano, não pensar, não sentir, quase não existir.
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