Quando a fé se interpõe

Quinta-feira, 18 de Setembro de 1975

O dia começou como uma centelha de esperança que teima em resistir às sombras do meu coração. Vi a Dila brevemente, enquanto caminhava pela rua com passos apressados. Aproximou-se de mim, o seu sorriso tímido iluminando o meu mundo, ainda que por momentos efémeros.

António — disse ela, com a voz doce que me deixa sempre sem fôlego — vou sair com os meus pais. Não podemos falar muito hoje.

Dila… posso perguntar-te algo? — perguntei, tentando que a minha voz soasse firme, sem traços da ansiedade que me corria pelas veias.

Ela olhou para mim, ligeiramente interrogativa, mas consentiu:
Claro, António. O que queres saber?

É… sobre a tua religião. Queria entender melhor… — engoli em seco, sentindo-me vulnerável.

Sou Testemunha de Jeová — respondeu calmamente, sem hesitar — é algo muito importante para a minha família. Sei que não compreendes bem, mas é parte de mim.

As palavras dela permaneceram na minha mente, como se tivessem deixado marcas invisíveis no ar. Eu tentava imaginar o mundo dela, tão diferente do meu, e como seria caminhar lado a lado nesse universo de regras e escolhas que eu não conhecia.

Ficamos em silêncio por um instante, apenas a sentir o pulsar do tempo entre nós, pesado e incerto. O peso da novidade misturava-se com a familiaridade do seu olhar, e eu percebi que, apesar das nossas diferenças, nada poderia apagar aquilo que sinto por ela.

Ao despedir-me, a sua mão roçou a minha propositadamente ou não, e, por um segundo, todo o mundo desapareceu. Senti a estranha mistura de alegria e medo, de amor e incerteza, sabendo que a fé que nos separa também é uma prova de paciência e compreensão que tenho de aprender a suportar.

A noite caiu, e eu regressei a casa com a cabeça cheia de pensamentos. A Dila continuava a ser o centro do meu mundo, mesmo que agora a sua fé traçasse limites invisíveis entre nós.

No silêncio do meu quarto, escrevo estas linhas: amo-a, e nada, nem mesmo uma religião, me fará esquecer esse sentimento. Amo-a com toda a intensidade, mesmo que isso signifique aprender a navegar por um caminho mais tortuoso.


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