O silêncio onde o coração se desorienta

Quarta-feira, 17 de Setembro de 1975

Hoje acordei com a sensação estranha de caminhar dentro de mim, como se o próprio corpo fosse um lugar desconhecido. Não sei o que me tem acontecido estes últimos dias — a frase repetiu-se-me logo de manhã, como se alguém a tivesse escrito na parede do meu pensamento. Sinto-me abandonado. Sinto-me só. Talvez porque tenho medo de que ela me tenha esquecido.

É ridículo, eu sei. Ridículo e verdadeiro.

A Dila… para qualquer pessoa, é só um nome. Um nome curto, leve, que passa despercebido na conversa do dia. Mas para mim… para mim é um fio inteiro de significado, é a respiração mais funda, é o lugar onde o peito se ilumina e se confunde ao mesmo tempo.

E amo-a.
Sim, amo-a — mesmo que essa palavra me assuste pela ousadia.
Mas ela não sabe.
Ou sabe… e prefere fingir que não sabe.

E essa dúvida tem-me roído por dentro, como se cada minuto me lembrasse que estou à espera de alguém que talvez não esteja à espera de mim.

O dia passou amarrado a esta inquietação. Não fiz nada realmente importante; apenas caminhei, respirei, pensei demais. Senti-me como uma casa vazia onde o vento entra por todas as frestas. Cada esquina do pensamento devolvia-me a mesma pergunta: Como é que algo tão certo para mim se pode tornar tão incerto para ela?

Recordei o encontro de ontem — aquela brevidade quase cruel, aquele sorriso cortado a meio, aquele adeus apressado que mais pareceu fuga do que despedida. E isso só aumentou o buraco no peito.

Houve um momento à tarde em que quase me convenci de que estou a ser ingénuo.
De que talvez tudo aquilo que li nos olhos dela tenha sido imaginação minha.
Mas depois lembro-me da forma como ela me escrevia, da doçura escondida nas palavras, das confissões tímidas que pareciam fugir-lhe da mão.
Isso não se inventa.
Isso vive-se.

Então porque é que agora me sinto como se estivesse sozinho num caminho que antes percorremos juntos?
Porque é que este amor parece, de repente, um território onde só eu permaneço?

À noite, já o mundo estava quieto e escuro, e eu continuei a pensar nela. Senti aquela tristeza funda que não pede lágrimas — apenas silêncio. E no silêncio, a verdade surge mais nítida:

Amo-a.
E talvez seja isso que torna tudo tão doloroso.
Porque amar, quando não sabemos se somos correspondidos, é ficar suspenso entre o céu e o chão, sem saber onde pousar os pés.

Termino o dia com uma sensação amarga de perda, mesmo sem a ter perdido totalmente. É como se estivesse a afastar-se devagar, a cada dia mais um pouco, e eu ficasse parado a vê-la desaparecer sem poder chamar por ela.

Mas ainda assim… uma parte de mim insiste em acreditar que este silêncio dela não é esquecimento — é medo, é confusão, é aquilo que ainda não sabe dizer.

E eu fico aqui, no escuro, preso entre a esperança e a dor, sem saber para que lado peso mais.


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