O instante que doeu mais do que a ausência
Terça-feira, 16 de Setembro de 1975
O dia começou como tantos outros — cinzento por dentro, mesmo que o céu insistisse no azul. Eu ia pela rua sem destino preciso, só a tentar abafar a torrente que me rolava no peito, quando, de repente, o mundo fez aquele pequeno estalido que só ocorre quando o inesperado decide aparecer.
A Dila.
Ali.
Tão perto que quase não acreditei.
Parecia saída directamente da memória — igual, mas mais distante. Trazia aquele jeito apressado de quem leva sempre responsabilidades atrás de si, como sombras que não largam.
Eu parei.
Ela parou também.
E durante um segundo, ou talvez nenhum, fiquei sem saber se sorria ou se me desfazia.
— Olá, António.
— Olá… Dila… - gaguejei
A voz saiu-me menor do que eu queria. Tremida sem parecer. Quis perguntar-lhe tudo — tudo — mas a mente encheu-se de receios como quem fica sem ar.
Ela puxou um sorriso curto, daqueles que dizem mais do que deviam e menos do que queríamos.
— Estás bem?
— Vou andando… e tu?
— Também.
Parecia que falávamos à volta de um poço fundo, sempre a contornar a borda, sempre com medo de olhar lá para dentro. Ela mexeu nas mãos, inquieta, como fazia sempre quando evitava um assunto.
— Tens andado muito ocupada? — perguntei, quase engolindo a urgência que me queimava a língua.
— Sim… os meus irmãos… a casa… e a bébé também.
Era verdade, claro. Mas havia ali mais qualquer coisa. Um cuidado exagerado nas palavras, como quem escolhe as mais neutras para não despertar nada.
— Ainda bem que te encontrei - arrisquei.
Ela baixou os olhos por um instante.
— Sim… foi uma sorte.
Mas não soou a sorte. Soou a desvio.
Pensei em perguntar-lhe sobre aquele “não”. Sobre o bilhete. Sobre tudo. Tinha tantas perguntas que parecia que o corpo não chegava para as carregar. Abri a boca… e nesse exacto momento, como num teatro cruelmente bem ensaiado, surgiu uma conhecida dela, vinda não sei de onde.
— Oh Dila! Estás aqui!
E pronto. O instante fechou-se.
A Dila virou-se ligeiramente, hesitou, como se tivesse algo para me dizer, mas o momento morreu ali.
— Tenho de ir… desculpa… — murmurou, quase num sussurro.
— Claro… — respondi, com o coração a desfazer-se num lugar onde ninguém via.
Ela afastou-se depressa, sem promessas, sem um “até logo”, sem nada que me deixasse sequer a ilusão de um futuro encontro. Apenas uma despedida apressada, tão curta que quase nem foi despedida.
Fiquei ali parado, a olhar para o vazio onde ela já não estava, com a sensação clara de que a ferida, que eu esforçadamente tentava fechar, acabara de ser reaberta com brutal delicadeza.
Passei o resto do dia com aquela cena inteira a repetir-se na cabeça. Foram minutos. Talvez menos. Mas bastaram para me arruinar o fôlego. Custou-me a forma como ela segurou as palavras, a maneira como evitou qualquer lugar onde pudéssemos tocar no que realmente importa.
E a pergunta voltou, insistente, como uma dor de fundo:
Será que ela quer afastar-se de mim?
À noite, deitado no escuro, a resposta parecia clara — clara demais para me confortar.
Senti a dor a instalar-se como uma sombra pesada.
E pela primeira vez, confesso… tive medo de que aquilo que foi tão nosso estivesse a desaparecer sem que eu pudesse fazer nada.
O dia terminou assim: com amargura, com perda, e com a sensação de que o destino, às vezes, gosta de brincar connosco só para nos lembrar que nem sempre temos escolha.
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