Entre o que foi dito e o que ficou por dizer

Segunda-feira, 15 de Setembro de 1975

Hoje acordei já a meio de um pensamento — como se a noite tivesse continuado o debate que ontem deixei a meio. O “não” da Dila voltou-me à cabeça com a mesma força com que entrou, mas desta vez trouxe companhia: todas as memórias que insistem em contradizê-lo.

Porque, se penso bem…
Se volto atrás…
Se revisito cada palavra trocada, cada olhar que não disfarçamos…
Então como é que aquele “não” encaixa naquilo que vivemos?

A manhã foi um inventário imperfeito:
Lembrei-me das conversas que pareciam pequenas, mas nunca o eram.
Da maneira como ela dizia “António…” — como quem pousa uma mão invisível no ombro.
Da forma como os olhos dela brilhavam quando me falava de coisas simples, como se eu fosse o primeiro a ouvi-las.
E sobretudo — sobretudo — daquele bilhete.

Aquele bilhete que guardo como quem guarda uma pequena fogueira para se aquecer nos dias frios.
Aquele bilhete onde ela enumera, quase envergonhada, todas as emoções que sentia por mim.
Aquilo não foi invenção.
Aquilo não foi um capricho.
Aquilo tinha verdade, tinha pulso, tinha coração.

Então… onde é que isso fica agora?
As palavras que se escrevem deixam de valer só porque depois se tem medo?
Ou é o contrário — valem tanto que ela sente que não lhes pode responder?

Passei o dia inteiro a mastigar estas dúvidas.
Não consigo encaixar o “não” no que vivemos antes.
Não consigo aceitar que tudo aquilo — o riso cúmplice, o brilho nos olhos, a calma que ela tinha quando estava ao meu lado — tenha sido apenas… papel.
Não quero acreditar que tenha sido uma ilusão minha.
Mas também não quero acreditar que foi verdade dela e que agora se tornou proibida.

A meio da tarde, outras perguntas começaram a espreitar, como sombras que se esticam no chão:
E se ela estiver a tentar esquecer tudo?
E se estiver a tentar convencer-se de que não sente, para não sofrer?
Ou pior ainda…
E se estiver a tentar convencer-me?

A dor veio devagarinho, como costumam vir as dores mais sérias.
Primeiro um incómodo, depois um aperto, depois uma espécie de recusa profunda:
Não pode ser. Não pode ser que aquilo que vivemos tenha sido tão pouco para ela.

E contudo…
O “não” está lá.
A recusa aconteceu.
E por mais que tente arrumar isto dentro de mim, tudo se espalha outra vez.

No fim do dia, já o céu estava cansado de luz, e eu também.
Pensei nos momentos bons e senti uma vontade enorme de voltar atrás.
Não para mudar nada — talvez só para sentir de novo a certeza que eu tinha antes de tudo isto.
A certeza de que ela gostava de mim.
De que nós dois éramos um caminho possível.

Agora o caminho parece bifurcar-se.
Num lado, a memória do que fomos.
No outro, a dúvida do que somos.

E eu fico parado, a meio da estrada, a perguntar-me se o amor pode desaparecer assim…
ou se fica apenas escondido, à espera de coragem para voltar a falar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »