As perguntas que me atravessaram o dia

Domingo, 14 de Setembro de 1975

Hoje o dia nasceu torto, como se viesse já com um nó atado ao peito. Acordei cedo — cedo demais — com a sensação de que a cabeça tinha passado a noite inteira a debater-se sozinha. E talvez tenha mesmo. Há pensamentos que não dormem, apenas mudam de posição.

Saí da cama a perguntar-me, mais uma vez: Porquê o não?
Ela diz que é muito nova. Treze anos. Sim, é verdade.
Mas depois penso: se é tão nova… como é que consegue ser tão mais madura do que eu?

É ela quem decide com calma.
É ela quem pesa as palavras.
É ela quem cuida dos irmãos como se fosse mãe.
É ela quem, ao que parece, ainda ajuda nas lidas da casa.
E eu? Eu tenho quinze e continuo a tropeçar em responsabilidades simples.

Então não percebo.
Ser nova é impedimento? Ou desculpa?
E se for desculpa… do quê? De quem? Para quem?

O pensamento acompanhou-me o dia todo, como sombra insistente. Fui fazendo as minhas coisas — comer, andar de um lado para o outro, ocupar as mãos — mas a cabeça voltava sempre ao mesmo sítio, ao mesmo enigma: Se ela é tão mais madura do que eu… então a idade não é o verdadeiro motivo, pois não?

Depois há o assunto da religião.
Ela disse qualquer coisa sobre isso também.
E eu fiquei sem saber onde encaixar uma coisa na outra.

O que é que a religião tem a ver com o facto de namorarmos ou não?
Será pecado na religião dela gostar de alguém?
Será errado querer estar ao lado dela?
Será que os pais lhe enchem a cabeça com regras e dogmas que ela sente obrigação de respeitar?
Ou será ela própria quem acredita nisso — e eu é que sou ignorante demais para entender?

Passei o dia num corrupio de emoções.
Ora zangado comigo por ser tão impaciente, ora triste por não a compreender, ora quase a rir da minha própria incapacidade de perceber o óbvio.
Mas qual é o óbvio?
Se ela própria parece não saber exactamente o que sente?
Ou sabe… e não pode dizer?

Houve momentos em que quase desejei ter mais idade.
Outros em que desejei que ela tivesse menos receios.
E ainda outros em que achei que talvez a culpa fosse minha, por querer demais, cedo demais.

À medida que o sol descia, senti-me mais cansado do que se tivesse corrido o dia inteiro.
Cansado de pensar.
Cansado de não perceber.
Cansado deste nó que não desata.

No fim da tarde, quando o céu começou a perder cor, dei por mim a desejar que o tempo voltasse atrás. Só um bocadinho. Só até antes daquele “não”. Talvez se eu tivesse dito outra coisa… ou se tivesse estado mais calmo… ou se ela estivesse menos presa ao que a rodeia… talvez tudo fosse diferente.

Mas o tempo não volta.
E eu fico aqui — com esta confusão que me atravessou o dia inteiro e este desejo teimoso de a ver, de a ouvir, de perceber, finalmente, o que é que separa o nosso querer do possível.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »