O dia que caminhou atrás de mim

Sábado, 13 de Setembro de 1975

Hoje acordei com aquela teimosia do corpo que insiste em avançar, mesmo quando a alma ainda dorme. A luz entrou pelas frestas como um convite tímido, mas eu demorei a levantar-me — havia em mim um cansaço que não vinha do sono, mas do pensar. Pensar nela, claro. Parece que cada dia a estendo um pouco mais dentro de mim, como quem alarga um quarto para lhe dar espaço.

A manhã passou arrastada. Fiz as coisas de sempre, mas sem vontade. A verdade é que o tempo muda de peso quando esperamos alguém: cada minuto fica mais espesso, mais lento. E eu passava por eles como quem atravessa água. Lembrei-me da conversa daquela quinta-feira arrasadora, daquela honestidade que me feriu mas que, de certa forma, também me protegeu. Se ela tivesse inventado uma desculpa qualquer, talvez doesse menos. Mas teria sido uma mentira. E a mentira, por mais gentil que seja, nunca faz companhia.

Depois do almoço saí. Uma parte de mim dizia: Hoje não a encontras. Outra, mais atrevida — e talvez mais tola — respondia: E se hoje for o dia? O coração tem esta capacidade irritante de contrariar a razão, mas sem ele a vida seria só uma lista de horários.

Andei por caminhos conhecidos, aqueles que se tornaram quase rituais. Olhei as sombras, procurei cores que fossem dela. Apenas o silêncio me acompanhava, mas era um silêncio cheio de significado, como se dissesse: “Hoje não, António. Hoje ainda não.”

No fim da tarde passei de novo pelo sítio onde costumávamos falar. Senti aquele aperto bom — o aperto de quem ainda acredita. O aperto de quem sabe que o que sente não é pequeno. Mas também o aperto de saber que nada depende só de mim. E aí reside o tormento e a beleza disto tudo: o amor é uma porta com duas chaves, e só uma delas está na minha mão.

Quando a noite chegou, levei comigo uma serenidade estranha. Não a vi — já esperava que não. Mas percebi, ao regressar a casa, que o meu sentimento por ela não precisa de resposta para existir. Claro, desejo-a. Claro, dói. Mas também cresce, e crescer é sempre um acto de futuro.

Talvez amanhã ela apareça. Talvez não.
Mas cada dia aproxima-me um pouco mais daquilo que sou quando penso nela — e isso, por si só, vale a caminhada.


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