Onde o silêncio se dobra em esperança

Sexta-feira, 12 de Setembro de 1975

Amanheci meio suspenso, como quem fica entre o sonho e a queda. Não era bem tristeza… era aquele estado meio brumoso em que o coração anda descalço e tudo magoa um pouco. Tinha prometido a mim mesmo que hoje a procuraria, mas o corpo demorou a alinhar-se com a vontade. Há dias assim: o mundo anda mais devagar, mas nós é que tropeçamos.

Passei a manhã distraído, a fingir que fazia coisas. Uma arrumação aqui, um olhar perdido além, e sempre a mesma pergunta: E se ela não vier? Há dúvidas que pesam como pedras, mas outras pesam como penas — parecem leves, mas ficam sempre a pairar sobre a cabeça. A dela era desse tipo.

Depois do almoço, decidi sair. Não havia destino, mas havia necessidade. Andei pelas ruas como quem procura sinais — uma sombra parecida, um eco distante de passos, uma cor de vestido que pudesse ser dela. Era absurdo… mas o amor tem destas infantilidades lúcidas: sabemos que não faz sentido, mas fazemos na mesma.

Quando o sol começou a descer, passei perto do sítio onde costumamos encontrarmo-nos. E ali o pensamento tomou conta de mim outra vez. Não estar preparada… não compreender certas coisas… Eu repetia as palavras dela em silêncio, como quem tenta decifrar um código secreto.

Talvez ela tenha medo de ser vista comigo. Ou medo de contrariar os pais. Ou medo de sentir demais e não saber o que fazer com isso. Às vezes penso que ela tenta proteger-me… de quê, não sei. Talvez de si própria.

Ao fim da tarde, o coração acelerou sem motivo — aquele pressentimento tolo de que ela podia aparecer ao virar da esquina. Mas a esquina ficou vazia, e o dia também.

Quando finalmente se fez noite, devolvi-me à rotina da Academia, mas sem convicção. Cada golpe parecia perder força a meio do ar. Treinar sozinho tem esta coisa: ou nos concentra, ou nos expõe. Hoje expôs-me.

Ao regressar a casa, dei por mim a pensar que, mesmo sem a ver, ela habitou o dia inteiro. É estranho como alguém pode faltar e, ainda assim, estar em tudo.

Amanhã tentarei de novo.
Não por insistência cega — mas porque há perguntas que só um olhar pode responder.
E eu ainda acredito que no fundo daquele “não”… mora qualquer coisa que se parece muito com um “espera por mim”.


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