A liberdade antes do retorno à rotina escolar

Sábado, 18 de Outubro de 1975

Hoje acordei com a sensação de que o tempo corria de forma diferente. Eu e o Benjamim seguimos cedo para o liceu, não para aulas, mas para anotar os horários e ver o material e livros que iríamos precisar na próxima semana. Era um ritual estranho, meio sério, meio divertido, preparar-nos para a rotina que se aproximava.

Aproveitamos a manhã para passear pela cidade do Porto, como quem se despede de uma liberdade que em breve nos seria retirada. As ruas estavam cheias de vida, mas também parecia que cada esquina guardava um eco do ano passado, memórias invisíveis de dias que já tínhamos vivido. Senti uma mistura de entusiasmo e melancolia: o prazer da liberdade antes do recomeço, o saber que a rotina se aproximava.

Depois do almoço, já em casa, comecei a organizar o material que tinha para o início das aulas. Livros, cadernos e lápis tornavam-se pequenas âncoras para o mundo que se aproximava. Mas, num instante de distração, surgiram memórias dos encontros com a Dila no ano lectivo anterior: passeios, sorrisos, trocas de palavras que agora pareciam tão distantes e ao mesmo tempo tão presentes.

Fechei o dia com uma reflexão que me acompanhava desde a manhã: uma mistura de ansiedade e apreensão. Não sabia o que se iria passar entre mim e a Dila, se os olhares e gestos do passado encontrariam continuidade ou se seriam apenas recordações doces a acompanhar-me pelo caminho.

O dia terminou com o coração ligeiramente pesado e a mente a imaginar o próximo capítulo, esperando que a semana que começava não roubasse por completo os pequenos encantos que o verão nos tinha dado.


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