O tempo que se aproxima

Domingo, 19 de Outubro de 1975 

Hoje o dia começou lentamente, como se soubesse que tudo se preparava para a semana que se avizinhava. Eu e o Manel encontramo-nos logo de manhã para vaguearmos sem rumo definido, conversando sobre as pequenas coisas e rindo de assuntos que, talvez, só nós entendêssemos. O ar estava fresco, mas não gelado, e o silêncio da cidade parecia acalmar a mente inquieta que trazia comigo.

Ao passarmos por ruas conhecidas, senti uma pontada de nostalgia: os últimos dias de liberdade antes de as aulas começarem na segunda-feira. Cada esquina lembrava-me encontros, conversas e sorrisos, e uma sensação de leve inquietação começou a crescer.

No final da tarde, eu e o Benjamim seguimos novamente para o Porto, desta vez mais centrados, pensando nos treinos na Academia. Pelo caminho, comentávamos as novidades e os planos para a semana que se aproximava, mas o meu pensamento insistia em voltar à Dila. Recordava os encontros do ano passado, os sorrisos rápidos, a forma como ela me olhava e as conversas que pareciam durar apenas segundos. Uma ansiedade misturada com apreensão crescia no peito: o que nos esperaria? Continuaria o olhar tímido e cúmplice ou algo teria mudado?

O dia terminou sem grandes acontecimentos, mas com o coração mais acelerado do que a monotonia poderia justificar. Fechei o diário com a sensação de que os próximos dias seriam decisivos, e que cada pequeno gesto, cada troca de olhares, poderia alterar a paisagem das minhas emoções.


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