A rotina reencontrada

Segunda-feira, 13 de Outubro de 1975

As aulas continuam adiadas e, por isso, os dias vão-se estendendo como fios longos, sem nós nem urgências. Acordei com a mesma calma de ontem, aquela sensação de que o mundo anda num tom mais suave, como se estivesse a falar em voz baixa para não perturbar ninguém.

Saí de casa sem destino marcado. Já começa a ser hábito: eu e os meus amigos a vaguear pela aldeia junto às minas, a conversar sobre pouco e a rir do nada. Há uma leveza nesses encontros que não exige esforço — cada passo é apenas um passo, sem significados escondidos.

Passei em frente à casa da Dila, mas já não senti o aperto antigo. Não houve aquela espera silenciosa por um gesto que não vinha, nem aquele nervoso miúdo que me fazia desviar o olhar. Hoje foi apenas uma casa, uma porta fechada, uma presença tranquila. Ela existe ali, é verdade, mas já não me impele a questionar tudo. Talvez seja isto a paz: não a ausência de sentimento, mas o descanso dele.

O resto do dia correu sem pressas. Andamos por aí, eu e os rapazes, como quem estica o tempo até onde ele quiser ir. Às vezes pedalei um pouco, outras vezes sentei-me à sombra a ver as horas passarem. Tudo simples, limpo, sem cicatrizes a arder.

Ao fim da tarde, a minha terra começou a ganhar aquele silêncio habitual, e dei por mim a apreciar essa rotina. Não havia expectativas nem sobressaltos — apenas o fluir natural de um dia igual aos outros, mas que, por alguma razão, me soube bem.

À noite, sentei-me um pouco com o meu pai, trocamos duas palavras, vimos televisão. Nada extraordinário. E, no entanto, senti-me inteiro.

Hoje foi um dia liso — sem ondas, sem sombras, sem perguntas. Um daqueles dias que se vive quase sem dar por ele, mas que, no fim, deixa uma sensação suave, como quem passa a mão por água morna.


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