Um dia à superfície

Domingo, 12 de Outubro de 1975

Hoje o mundo amanheceu sem pressas. E, pela primeira vez em vários dias, senti que também eu respirava sem peso. Não havia aquela inquietação miudinha a furar o peito, nem aquele sobressalto que a lembrança da Dila costuma trazer. Era como se tudo tivesse assentado — não desaparecido, apenas repousado.

A manhã passou devagar, com o sol a espreitar por entre as nuvens como quem pede licença. Fui fazendo pequenas coisas: arrumar uma gaveta, dar dois passos no quintal, ajudar aqui e ali sem grande esforço. Nada disso exigiu pensamento, e talvez tenha sido essa a melhor parte. O corpo movia-se, a cabeça acompanhava, e o coração… estava manso.

Não pensei propriamente na Dila, pelo menos não da forma intensa que tem sido habitual. Ela estava lá, claro — porque está sempre — mas a uma distância confortável, como alguém sentado numa mesa ao fundo de um café. Presente, mas sem chamar por mim.

Passei algum tempo à janela a ver o dia avançar. Soube-me bem esse silêncio exterior, esse ritmo lento que não pede explicações. Há dias em que a vida não se impõe, apenas se deixa viver. Hoje foi um deles.

À tarde dei uma pequena volta, sem objectivo, apenas para sentir o ar. Vi gente conhecida, acenei, troquei duas palavras. Senti-me leve — não feliz, não triste, apenas… leve. É engraçado como às vezes a paz chega assim, de lado, sem anunciar nada.

À noite, sentei-me a ver televisão com uma calma que já não lembrava. E percebi que, mesmo sem grandes acontecimentos, o dia tinha sido inteiro. Um dia simples, sem ruídos, sem turbulências. Um dia que não exige análise.

Hoje não houve sobressaltos de coração, nem perguntas sem resposta.
A vida correu pela superfície — tranquila, suave, como um lago que se limita a estar ali.

E às vezes… isso basta.


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