O peso doce da ausência

Sábado, 11 de Outubro de 1975

Acordei cedo, mais cedo do que queria. Não por vontade, mas porque a mente insistiu em acordar antes do corpo. Há dias assim — em que a memória decide ser despertador.

Levantei-me sem pressa, com aquela lentidão que não vem do sono, mas do que se carrega por dentro. E, claro, lá estava ela outra vez, a Dila, não como lembrança distante, mas como presença teimosa a ocupar cada canto de pensamento. Às vezes penso que, se pudesse vê-los de fora, os meus dias pareceriam todos iguais; mas por dentro há sempre uma pequena revolução que ninguém vê.

A manhã passou comigo a fingir ocupações. Tentei varrer o quintal, mas a mente varria apenas os detalhes do encontro de anteontem. Voltei a ouvir a voz dela — aquele “aceito a tua amizade” que me deixou suspenso num meio-termo que não sei se é consolo ou castigo. E, ao mesmo tempo, revi o rubor no rosto dela quando lhe falei da carta. Esse instante continua a bater-me no peito como uma porta entreaberta que tenho medo de tocar.

Passei também algum tempo a perguntar-me se ela teria pensado em mim ontem. Não é propriamente romantismo — é mais uma inquietação íntima, quase infantil, de quem não sabe em que terreno pisa. Senti-me ridículo por um momento, mas a verdade é que a adolescência raramente permite dignidade. Fazemos figuras que nunca confessaremos, só para tentar sentir uma migalha de certeza.

Ao longo da tarde dei algumas voltas por S, Pedro. Não procurava nada, mas o corpo insiste sempre em andar quando a cabeça não encontra lugar para pousar. Cada rua parecia carregar a possibilidade — absurda, improvável, mas possível — de a ver ao longe. E isto já bastava para manter o coração num compasso irregular.

O curioso é que a ausência dela tem um peso estranho: dói um pouco, mas é uma dor doce, quase necessária. Como se me lembrasse que aquilo que sinto é real, porque insiste em permanecer mesmo quando ela não está.

À noite, tentei distrair-me com a televisão, mas as imagens passavam como vultos. Por dentro, eu revivia ainda o instante em que ela ficou sem palavras, naquele silêncio cheio que mais dizia do que qualquer frase inteira.

Hoje não houve nada de extraordinário.
Mas tudo o que senti veio do mesmo lugar: dela.
E, queira ou não, é nessa ausência presente que tenho vivido — como se cada dia me ensinasse devagar a entender o que me está a acontecer.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »