Hoje… só este silêncio cheio.
Sexta-feira, 10 de Outubro de 1975
O dia correu como um rio lento, desses que mal fazem barulho. Apesar de me ter ocupado de manhã com coisas sem importância — um contraste gritante com a erupção emocional que ardia por dentro — tentei manter-me ativo apenas para abafar os pensamentos que ameaçavam emergir. Arranjei a bicicleta, dei umas voltas com os meus amigos e até fui ao café com o meu pai… mas tudo isso não passou de cenário, sombras em movimento enquanto eu permanecia imóvel no mesmo ponto interior: ela.
O encontro de ontem não me saiu da cabeça desde o instante em que acordei. Parecia que cada palavra dela voltava a repetir-se na minha mente, sempre com a mesma nitidez irritante — como se alguém rebobinasse o momento vezes sem conta, sem me pedir permissão.
Recordei a maneira como os olhos dela hesitaram antes de me encarar. A pausa antes de dizer o meu nome. O sorriso quase escondido. A fragilidade de quem quer aproximar-se mas teme ser vista. E eu… eu, que nem sempre sei o que fazer com as mãos quando estou perto dela, senti-me de repente inteiro, exposto, sem defesas.
A frase que mais me perseguiu hoje — e que me ecoou por dentro como uma espécie de promessa triste — foi quando ela murmurou “aceito a tua amizade”.
Não disse “quero”, não disse “não quero”.
Disse “aceito”.
Palavra estranha, que fica a meio caminho entre o possível e o proibido.
Nas minhas divagações ao longo do dia, dei por mim a imaginar se ela teria pensado novamente no que lhe disse. Se teria sentido o mesmo calor que eu senti quando confessei que não queria perdê-la — mesmo que fosse apenas como amiga, esse termo que os adultos adoram usar como se resolvesse tudo. A verdade é que amizade, quando já se gosta demais, é como ficar na soleira da porta a ver a casa iluminada por dentro e saber que não se pode entrar.
E depois houve aquele instante — tão rápido que mal sei se o vivi — em que ela corou ao ouvir-me falar da carta. Aquele vermelho discreto que subiu-lhe ao rosto valeu mais do que se me tivesse dito cem vezes que tudo ia ficar bem.
À tarde, enquanto pedalava com os meus amigos, o vento trazia-me de volta a lembrança do momento em que ela ficou sem palavras. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque o que sentia não cabia num fio de voz. E, sinceramente, poucas coisas me tocaram tanto.
O resto do dia passou-me como uma manta cinzenta: tudo irrelevante. Até eu próprio me senti irrelevante para o mundo exterior. O único sítio onde realmente existi foi naquela conversa de ontem, guardada como quem esconde uma fotografia num bolso interior do casaco.
Hoje não houve encontro, nem sorrisos, nem hesitações.
Houve só este silêncio cheio.
Este pensar constante.
Este medo de avançar… e esta vontade de não recuar.
Se ontem falou o coração, hoje falou a saudade do instante. E talvez, sem que ela saiba, a Dila tenha passado o dia inteiro sentada comigo — não ao meu lado, mas dentro de mim.
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