Encontro com a Dila... tudo esclarecido, ou não.

Quinta‑feira, 9 de Outubro de 1975

De manhã, andei a passear de bicicleta com o Benjamim. O vento fresco batia-me no rosto, trazendo alguma sensação de liberdade e distração, mas a atenção não se desligava completamente da Dila. No regresso a casa, passei por diante da sua porta, sentindo aquele misto de ansiedade e expectativa que já se tornara habitual.

Pouco depois do meio‑dia, decidi procurá-la. Mal dei os primeiros passos, dei de caras com ela. Um embaraço imediato encheu-me de perguntas constrangidas e sorrisos tímidos.

A surpresa pairou no ar. Ela ergueu os olhos para mim, os lábios entreabertos como se quisesse dizer algo, mas hesitava. Eu, sentindo o coração acelerar, arrisquei o primeiro passo:

Olá Dila… não esperava encontrar-te… que boa surpresa.

Ela sorriu timidamente, e o encanto do momento fez o mundo à nossa volta desaparecer. Cada pequeno gesto dela parecia captar toda a luz do dia.

Eu também não… António… — respondeu, quase sussurrando. — Que coincidência…

O que tens feito? Não te tenho visto… — acrescentei — em lado nenhum…

Não desapareci, mas a minha mãe… — fez uma pequena pausa — tem feito de tudo para me manter ocupada… mal tenho tido tempo de sair… — desabafou.

Mantivemos uma conversa leve, mas eu sabia que havia algo mais a dizer, algo que precisava de ser revelado. Respirei fundo e falei com voz viva, deixando de lado o bilhete que ainda guardava:

Dila… queria dizer-te algo. É sobre a carta que a tua mãe encontrou.

Sim? E o que dizias na carta? — perguntou, um pouco embaraçada pela ansiedade revelada.

A carta era mais uma confissão. — desabafei. Expliquei-lhe que o meu desejo era que não desaparecesse da minha vida. Se o destino quisesse que fôssemos apenas amigos, aceitava, desde que pudesse continuar a sentir a sua presença, ouvir a sua voz, partilhar aqueles pequenos momentos que dão sentido aos dias.

Com estas palavras, a Dila emudeceu, corando, sem conseguir evitar que as minhas palavras a tivessem tocado no íntimo, e não conseguiu articular uma palavra.

Não consigo deixar de pensar no que lá escrevi, e queria que soubesses que tudo o que disse… vem do coração. Não queria causar problemas, nem preocupar-te. Só… não queria que se perdesse o que sentimos, mesmo que sejamos apenas amigos.

Ela olhou para mim, os olhos a brilhar de emoção contida. Ficamos em silêncio por alguns instantes, como se cada palavra tivesse pendurado o tempo no ar.

António… — disse ela finalmente, com um sorriso suave — entendi. E… não estou zangada. Sei que foste sincero… A minha mãe nada disse do que lá estava escrito, mas esteve muito zangada comigo… creio que ainda está…

Lamento profundamente, Dila… — disse quase num sufoco. — Só te meto em trabalhos…

Aceito a tua amizade, António… — interrompeu-me de forma sôfrega e continuou — mas sabes as limitações que tenho…

Ou que te foram impostas… — disse, não conseguindo conter a frustração.

De qualquer forma, são limitações… — continuou — das quais não me é permitido fugir… no entanto, como já disse, podemos continuar a ser amigos, por isso…

A nossa conversa, porém, foi interrompida por um miúdo que a chamou para ir à mãe. Esperei pacientemente, mas quando percebi que ela já não voltaria, decidi regressar a casa, levando comigo o calor discreto daqueles minutos preciosos.

À tarde, voltei a pedalar com dois colegas. O movimento, o esforço físico, ajudaram a dissipar um pouco da ansiedade, trazendo-me de novo para o ritmo da vida cotidiana. À noite, fui com o Benjamim para a Academia, onde o treino me deu outro tipo de recompensa. No fim da aula, fui graduado em 8º Kyu, conquistando o cinturão amarelo. Um pequeno triunfo que trouxe alívio e orgulho, equilibrando a inquietação do coração com a satisfação de um objetivo alcançado.

Ao terminar o dia, refleti sobre o contraste entre a intensidade silenciosa dos encontros com a Dila e a leveza das pequenas conquistas do quotidiano. Ambos os momentos, tão diferentes, contribuíam para o crescimento do meu mundo interior, recordando-me que, mesmo entre ansiedade e desejo, a vida oferece pequenas alegrias que merecem ser vividas e guardadas.


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