Entre passos e olhares

Quarta‑feira, 8 de Outubro de 1975

Toda a manhã andei a passear com os meus colegas. O sol iluminava as ruas com uma calma agradável, e cada passo parecia prolongar-se em memórias invisíveis. Apesar das conversas e risos, a minha mente não descansava: cada pensamento voltava, inevitavelmente, para a Dila. A saudade acompanhava-me como uma sombra silenciosa, tornando cada momento de alegria parcial, incompleto, desejando que, por um instante, ela estivesse presente.

De tarde dei um novo passeio, desta vez com o Benjamim. A companhia dele trouxe-me algum alívio, mas o passeio foi curto. A mente, como sempre, procurava encontrar sinais, sinais que a realidade teimava em não me dar. No regresso, passei em frente da casa da Dila. Não a vi, mas a presença da mãe dela, talvez atenta ou curiosa, fez-me tremer levemente. Senti os olhos dela a atravessar a rua, talvez a observar, e essa ideia fez-me lembrar que o mundo dela continuava, distante e próximo ao mesmo tempo.

À noite, voltei novamente a passar em casa dela, movido por um impulso silencioso, uma esperança que teimava em não se apagar. Depois regressei a casa e, na companhia dos dois amigos, vi televisão, mas o coração não se desligava. Cada som, cada gesto, cada riso no ecrã era uma lembrança daquilo que faltava, do que ainda desejava viver com ela.

Encerrando o dia, percebi que a vida segue, mesmo quando os desejos mais profundos permanecem suspensos. Cada passo que dei, cada olhar lançado, cada momento partilhado ou imaginado com os amigos foi um exercício de paciência e resistência. A ansiedade persistia, sim, mas também a certeza de que cada esforço, cada espera silenciosa, estava a fortalecer-me para quando chegasse a hora de a encontrar novamente.


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