Um susto sem consequências
Terça‑feira, 7 de Outubro de 1975
O dia passou quase sem história, mas com a intensidade silenciosa daquilo que se sente sem se ver. Desde a manhã, o pensamento da Dila ocupava cada instante; não havia momento em que não me lembrasse do seu sorriso, do seu olhar, das conversas e risos que faziam o tempo parecer leve. Cada pedalada do passeio de bicicleta com o Manel e o Benjamim trazia consigo a sensação de liberdade, mas também a companhia constante da saudade, uma presença invisível que me acompanhava mesmo entre amigos.
Percorremos os caminhos do monte, discutimos pequenas aventuras, mas a mente não descansava. A cada curva, a cada sombra de árvore, a imaginação desenhava possíveis encontros, aproximações que não existiam, mas que preenchiam o coração. O sol caiu lentamente sobre os campos e, ainda assim, a ansiedade persistia, silenciosa, constante, inquebrantável.
À noite, quando regressei a casa, veio o susto inesperado: o diário, meu confidente e guardião de pensamentos, tinha desaparecido. Um frio correu-me pela espinha — a minha irmã mais nova, Celeste, tinha-o "surripiado" com curiosidade travessa, sem saber do valor que ele continha. Percorri a casa com o coração a bater acelerado, imaginando cada página perdida, cada palavra arrancada pelo acaso. Mas, por sorte, a confusão teve breve duração: o diário regressou ao seu legítimo dono, seguro e intacto, trazendo comigo um suspiro de alívio profundo.
Fechei o dia com uma mistura de cansaço, gratidão e reflexão. A vida, com os seus pequenos sustos e momentos de normalidade, mantém-me em alerta e desperto, lembrando-me que, mesmo entre amigos e brincadeiras, cada instante é precioso e que os sentimentos — silenciosos, mas intensos — são aquilo que dá sentido a tudo.
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