Um dia sem história...

Terça-feira, 14 de Outubro de 1975

A manhã começou sem pressas, como tem sido hábito. Acordei com aquela leveza que se instala quando o coração já não anda a correr atrás de nada. Lá fora, S. Pedro respirava devagar, e eu acompanhei esse ritmo sem contrariar o tempo.

O Manel apareceu logo cedo, como quem sabe que não é preciso convite. Chegou com aquele jeito dele — meio desajeitado, meio divertido — e ficamos um bocado a conversar sobre tudo e sobre nada. Pouco depois juntou-se o Benjamim, sempre pronto para inventar qualquer coisa só para o dia parecer mais cheio do que é.

Demos um pequeno passeio, curto, quase simbólico. Apenas três amigos a andar ao acaso, partilhando frases soltas, risos breves, e longos silêncios que não incomodavam. Havia uma paz qualquer na simplicidade desses passos.

A certa altura, o Benjamim decidiu experimentar umas coisas com a guitarra dele. Não saiu muito mais do que uns acordes soltos, mas serviu para nos entretermos um pouco. O Manel tentou acompanhar batendo o ritmo no joelho — sem grande talento, mas com muita vontade — e eu limitei-me a ouvir, a sentir o som espalhar-se no ar com aquela leveza de tarde tranquila.

O resto do dia foi passado em amena cavaqueira. Histórias repetidas, piadas gastas, conversas sem profundidade — tudo aquilo que, mesmo assim, nos faz sentir que pertencemos a algum lugar. Não houve momentos marcantes, nem acontecimentos que valham nota no caderno. E talvez seja isso que o tornou tão sereno.

A noite regressou com a sensação de que o dia tinha passado por mim sem fazer barulho. Um dia simples, direito, liso como uma pedra polida pelo rio. Nada mais do que isso — e nada menos.

Hoje, a vida limitou-se a ser vivida.
E às vezes… é assim que ela sabe melhor.


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